À BEIRA DO ABISMO: A EXPLORAÇÃO SISTÉMICA DO DESESPERO.
Como as Burlas e os Jogos de Azar Exploram o Desespero dos Moçambicanos
Do Autor para vocês, com carinho e fé!
Há dias em que acordamos já cansados. Não é o cansaço físico do trabalho. É o peso de contas que não param de crescer, de um acidente que transformou um pequeno saldo positivo numa dívida pesada, de um salário que só chega no final do mês e que, mal toca na conta, já está comprometido. É o cansaço de quem vive na Função Pública em Moçambique e sente que, por mais que discipline os gastos, o chão continua a fugir debaixo dos pés.
E é exactamente nesses momentos que chegam as mensagens.
“Curandeiro António. Existem 3 formas de mudar a sua vida. Trato à distância…”
“Parabéns! 20.435,00 MT ganhos no Aviator. Receba 7560 MT no teu primeiro depósito…”
Duas mensagens recebidas no mesmo dia. Dois números diferentes. Duas promessas de solução rápida para quem mais precisa. Eu bloqueio um, aparece outro. Bloqueio dez, surgem vinte. Já são centenas. A rede é vasta, profissional e cruel: ataca precisamente quando a esperança está mais frágil.
Eu sei o que é isso. Há dois meses que não compro uma única bebida alcoólica. Cortei o supérfluo. Mas um acidente com uma viatura que assumi virou o jogo. Agora faço malabarismos com dívidas: uma para resolver o carro, outra com os agiotas que tento fechar até Agosto. Se não tivesse acontecido isto, estaria com quase 7 mil meticais de margem e conseguiria poupar 4 mil para Julho. Agora, o plano só volta a fazer sentido em Setembro. É assim que a vida de muitos de nós funciona: um imprevisto e meses de disciplina vão por água abaixo.
Por que é que caímos (ou quase caímos) nestas armadilhas?
Porque quando se está afogado em dívidas, sem apetite para comer, sem ver luz ao fundo do túnel, qualquer mensagem que prometa “ficar rico sem matar ninguém” ou “recuperar o dinheiro no Aviator” parece um bote salva-vidas. É o efeito psicológico da vulnerabilidade: o cérebro em modo de sobrevivência agarra-se a qualquer sinal de esperança, mesmo que venha de um desconhecido com um número da Tmcel ou Vodacom.
Os “curandeiros à distância” exploram a fé e o desespero emocional. Os anúncios de jogos de azar (especialmente o Aviator, esse jogo de crash altamente viciante) exploram a ilusão de que um clique pode resolver tudo. Muitos colegas da Função Pública já caíram. Alguns perderam tudo. Outros, infelizmente, não aguentaram a vergonha das dívidas e viram no suicídio a única saída.
Isto não é fraqueza individual. É um problema sistémico. Enquanto o SERNIC persegue algumas burlas electrónicas, milhares de mensagens continuam a circular diariamente. A rede é demasiado grande. Bloquear ajuda, mas não resolve. Reportar aos operadores e às autoridades é necessário, mas não chega.
O que realmente nos salva?
Disciplina. Mesmo quando dói. Mesmo quando parece que não vale a pena.
Eu continuo. Reduzi hábitos, negoceio dívidas, procuro formas honestas de rendimento extra. O meu blogue verbalyzador.blogspot.com é uma delas. Leio centenas de textos entre análises, reflexões, críticas e ideias profundas, até crónicas e outras formas de expressão através da escrita. Alinho-os, muitos nem precisa, pois já chegam perfeitos e impecáveis. Público. Partilho conteúdo todos os dias em centenas de grupos de Whatsapp, sou removido, sou adicionado noutros e vejo alguns conteúdos eliminados e sancionados...
Não é fácil chegar às 100 ou 200 mil visualizações por mês, mas é o meu caminho. Sem atalhos, sem curandeiros, sem Aviator, sem contractos e com poucos "parabéns" que valem ouro, mesmo precisando de dinheiro.
Escrevo este texto não para pedir pena, mas para acordar. Para quem está na mesma situação: bloqueia essas mensagens sem ler até ao fim. Não dês clique. Não dês o teu dinheiro. A solução não vem de um ritual à distância nem de um multiplicador de 4x no casino online.
A solução vem de dentro: cortar o que não é essencial, negociar o que deve, criar valor real (mesmo que pequeno) e proteger a saúde mental. Falar com alguém. Rezar ou meditar. Dar um passo de cada vez.
Se estás a passar por isto, sabe que não estás sozinho. Milhares de moçambicanos acordam todos os dias com a mesma angústia. Perseguidos pela polícia, produtos com fiscais, contas por pagar e fornecedores lentos, clientes exigentes... Mas também com a mesma capacidade de resistir. Existir. E, continuar a sobreviver hoje para voltar a lutar amanhã!
Que a nossa disciplina seja mais forte que o desespero.
Que a nossa inteligência seja mais esperta que as burlas.
E que, um dia de cada vez, possamos olhar para trás e dizer: “Passei pela boca do poço e não caí.”
-... "Bloqueei Centenas de Burlas e Continuo na Luta Financeira"...
Partilha se te identificas. Vamos quebrar o silêncio.


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