O QUE DOIS CASADOS PROCURAM FORA DO CASAMENTO? (NÃO É O QUE PENSA)

O que Realmente Move Dois Casados Para os Braços um do Outro?

À primeira vista, a resposta parece fácil: sexo. Paixão. A excitação do proibido. Mas se escavarmos para além da superfície, percebemos que a questão é mais sombria e, ao mesmo tempo, mais humana. Quando um homem casado e uma mulher casada se envolvem, a cama é apenas o palco. O verdadeiro espectáculo é a fuga de si mesmos.

O espelho partido que o outro segura

O que esses dois procuram, acima de tudo, é um reflexo diferente. Dentro do casamento, cada um já tem um papel fixo e desgastado: o marido que só dá más notícias financeiras, a esposa que só reclama do cansaço. Tornaram-se previsíveis, funcionais, quase invisíveis na sua repetição diária.

Com o amante, inauguram uma nova identidade. Ali, ele volta a ser o sedutor espirituoso, nunca o homem que se esquece de pagar a conta da luz. Ela volta a ser a mulher misteriosa e desejada, nunca a mãe exausta que dá ordens sobre os trabalhos de casa. Procuram, desesperadamente, a versão de si mesmos que a rotina soterrou.

A adrenalina como anestesia

Num casamento longo, o tempo torna-se achatado. Os dias são seguros, mas também claustrofóbicos. O envolvimento entre dois casados é uma espécie de droga que devolve a sensação de perigo, de imprevisibilidade. Cada mensagem secreta, cada encontro roubado, é um murro na monotonia. Não é tanto sobre o prazer físico, mas sobre sentir o sangue a correr mais rápido outra vez. É a adrenalina a anestesiar o vazio de uma existência previsível.

A validação que o cônjuge já não dá

Dentro de casa, o elogio murchou. O outro já conhece todos os defeitos. Mas o amante casado chega com olhos novos, com uma fome que o cônjuge, de tão saciado de convivência, já perdeu. 

Ele ou ela valida a beleza, a inteligência, a juventude que ainda resta. Procuram a sensação intoxicante de serem vistos não como móveis da casa, mas como pessoas desejáveis, capazes de gerar paixão.

O pacto silencioso da conveniência

Há aqui uma ironia cruel. Dois casados, ao traírem juntos, entendem-se numa linguagem que os solteiros não dominam: a da limitação. Nenhum dos dois precisa fingir que quer fugir de casa para sempre. A agenda é sempre apertada. O envolvimento já nasce com data de validade e isso, paradoxalmente, é libertador. 

Não há a pressão de construir um futuro. Apenas o presente roubado, sem exigências. Procuram, no fundo, a intensidade sem responsabilidade, o fogo que aquece sem queimar o lar que já construíram.

O que está em falta não é a pessoa, é a sensação

Quando um homem casado e uma mulher casada se cruzam, a falta não é um do outro. É uma falta conjunta e antiga. Falta-lhes o frio na barriga, o imprevisto, a sensação de aventura. Usam o corpo um do outro como ponte para um território que perderam: a juventude, a liberdade, o ego adormecido.

É uma procura condenada ao fracasso porque, por mais eletrizante que o caso seja, a novidade também cansa, o espelho também embacia e o vazio, esse regressa sempre, talvez ainda mais profundo.

Porque, no fim, eles não procuram uma nova pessoa. Procuram um velho “eu” que talvez nem exista mais. E isso, nenhum amante pode devolver.

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