A CRESCENTE DESMASCULINIZAÇÃO PRÁTICA E SILENCIOSA

O Fenómeno Moderno e Contemporâneo que Agita as Redes Sociais

Uma imagem vale mais do que mil palavras, mas esta, em particular, fez correr rios de tinta digital. Na fotografia que saltou das redes sociais para o debate global, vê‑se uma mulher, de luvas ou não, mas com ar concentrado, a trocar o pneu de um carro. Ao lado, um homem, aparentemente saudável, assiste. Nenhum contexto atenuante aparente – o veículo não é necessariamente dela, a habilitação pode ser de ambos, a saúde dele não está comprometida. Simplesmente, a tarefa que o senso comum sempre atribuiu ao “macho” está, ali, entregue a ela. E é precisamente essa cena que nos obriga a olhar para um fenómeno moderno e incómodo: a desmasculinização prática do homem contemporâneo.

A crescente desmasculinização prática

Não se trata da perda de virilidade biológica nem de uma campanha ideológica. Trata‑se, isso sim, da transferência espontânea ou passiva de responsabilidades que durante séculos foram consideradas “coisa de homem” para as mulheres, mesmo quando o homem está presente, é capaz e goza de plena saúde. Um fenómeno que ignora fronteiras de religião, região ou legislação e que se infiltra no quotidiano com uma naturalidade desconcertante.

Será um teatro da Desmasculinização Circunstancial?

Olhe à sua volta. Na sala de estar, é ela quem monta o móvel novo, com a chave de fenda numa mão e o manual noutra, enquanto ele comenta da poltrona que “não leva jeito para a coisa”. No supermercado, é ela quem carrega os sacos mais pesados até ao carro. Em casa, quando o router falha, é a mulher que reinicia o sistema, que liga para a assistência técnica, que resolve – o homem limita‑se a queixar‑se da lentidão da rede. E a clássica lâmpada fundida? Muitas vezes é ela quem trepa à cadeira para a trocar, enquanto ele sugere “chamar alguém”. Até em situações de tensão na rua, não é raro ver a mulher tomar a dianteira, intervir ou confrontar, enquanto o companheiro ensaia um recuo diplomático. Estes exemplos, recolhidos em qualquer esquina do mundo lusófono, desenham uma realidade inegável: o homem moderno está, voluntariamente, a demitir‑se de funções que outrora definiam parte da sua identidade social.

Podemos definir este fenómeno como “desmasculinização circunstancial” – uma abdicação prática do papel tradicional masculino que não decorre de uma incapacidade real, mas de um novo arranjo de conforto, de uma reinterpretação confusa da igualdade de género ou, simplesmente, da ausência de aprendizagem das competências básicas que antes se transmitiam de pai para filho. E é aqui que o debate ganha espessura.

Várias razões convergem. Desde logo, a geração atual cresceu num ambiente em que muitas tarefas manuais deixaram de ser ensinadas aos rapazes, sob o argumento de que “eles precisam de estudar, não de sujar as mãos”. Ao mesmo tempo, o justíssimo combate ao machismo criou, num certo segmento masculino, o receio de parecer autoritário ao assumir o comando de uma situação – e, no exagero da correção, o homem apaga‑se por completo, confundindo igualdade com omissão. Some‑se a isso a redescoberta de uma zona de conforto: se ela resolve, se ela é mais rápida e eficaz, porquê esforçar‑se? Por fim, muitas mulheres, empoderadas e resolutas, preferem agir a esperar que o parceiro “se decida”, consolidando um ciclo em que eles se tornam progressivamente dispensáveis para a logística do dia a dia.

É crucial sublinhar que a reflexão não visa retirar mérito às mulheres – elas revelam, muitas vezes, competência superior –, nem defender um regresso nostálgico a um mundo de papéis rígidos. A questão que se coloca é outra: o que significa, para o equilíbrio relacional e para a identidade masculina, este progressivo alheamento das responsabilidades outrora partilhadas? As redes sociais, com a sua capacidade de amplificar o que antes ficava na penumbra doméstica, mostram que o tema é um barril de pólvora. De um lado, quem veja a mudança como evolução saudável; do outro, quem a entenda como perda de referências e declínio de um pilar cultural.

A fotografia do pneu não é, afinal, um acaso. É o espelho de uma dinâmica que se instalou sem alarde, mas que diz muito sobre como o homem moderno se redefine – ou se demite – no espaço mais íntimo da vida prática. Talvez o primeiro passo seja reconhecer que igualdade não significa neutralidade forçada, e que a competência não tem género, mas a corresponsabilidade pelo que é necessário fazer, sim. Enquanto o debate não avançar para lá do meme, continuaremos a ver mulheres a trocar pneus enquanto eles filmam para a posteridade – e a perguntar‑nos, entre um like e um comentário indignado, que tipo de homens queremos ser e criar.


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