TEAM-BUILDINGS QUE DEGRADAM

Quando a “Diversão Corporativa” se Transforma em Humilhação Colectiva e Desconfiança

O vídeo circula nas redes sociais e expõe o que muitos casais já suspeitavam.

Há imagens que não precisam de som para ferir o orgulho e abalar a confiança. Um grupo de mulheres deitadas de costas no chão, com frutas colocadas estrategicamente na zona pélvica, enquanto homens se inclinam, sem usar as mãos, para tentar mordê-las ou apanhá-las. O cenário é apresentado como team-building - aquela actividade “inovadora” que as empresas organizam para fortalecer laços entre colegas. Mas o que se vê é outra coisa: corpos expostos, gestos sugestivos, risos que misturam descontração com provocação, numa fronteira perigosa entre o lúdico e o erótico.

Não é ser retardado, porque mesmo lá onde dizem ser uma civilização avançada ou países desenvolvidos e de qualquer forma evoluídos, também não está dar certo aguentar essas exposições.

Este não é um caso isolado para África. Cada vez mais, os chamados team-buildings corporativos abandonam as dinâmicas sérias de formação e resolução de problemas para entrarem no terreno do exibicionismo leve, da sedução disfarçada e da “brincadeira inocente” que ninguém ousa questionar no momento. O argumento é sempre o mesmo: “É só diversão”, “Não há mal nenhum”, “Estamos a quebrar barreiras hierárquicas”. Mas quando as esposas e maridos veem estes registos nas redes, a reação é outra: choque, ciúme, decepção e, muitas vezes, discussões que abalam lares.

Casadas em casa, “jogadoras de equipa” no serviço

Este fenómeno não surge do nada, apenas. Liga-se a um padrão mais vasto que já discutimos aqui: o duplo padrão comportamental. Em casa, muitas mulheres casadas mantêm uma postura de recato, fidelidade e responsabilidade familiar. No ambiente de trabalho - especialmente em eventos “fora da rotina", surge uma versão mais solta, mais disponível, mais “moderna”. O team-building com frutas na virilha é apenas a versão extrema e viral desta tendência. O que se passa realmente nestes momentos? Desinibição induzida: O álcool, a ausência dos cônjuges, a pressão do grupo e a narrativa de “liberdade” corporativa criam um ambiente onde os limites normais se esbatem.

Erotização do espaço profissional: Actividades que envolvem contacto físico, exposição do corpo e gestos de intimidade simulada transformam colegas em potenciais objetos de desejo.

Normalização do risco: Muitos participantes justificam com “É só uma brincadeira”. Mas quantos casamentos já sofreram rachas por causa de “brincadeiras” que ficaram registadas para sempre?

Não se trata de puritanismo. Trata-se de realismo. O ser humano não é uma máquina que liga e desliga a atracção sexual conforme o local. Quando se coloca homens e mulheres em situações de proximidade física sugestiva, sob o pretexto de “construir equipa”, está-se a jogar com fogo. E o fogo, como se sabe, raramente respeita contratos de casamento ou hierarquias corporativas.

O custo escondido desta “modernidade”

Para as empresas, talvez pareça uma forma barata de aumentar a “coesão”. Para a sociedade, o preço é mais alto: erosão da confiança nos relacionamentos, banalização do corpo, especialmente do corpo feminino, e uma geração que aprende que quase tudo pode ser justificado em nome da diversão ou da carreira.

Muitos homens que assistem a estes vídeos ou menos, vê imagens assim, não reagem por “machismo tóxico”, mas por uma inquietação legítima: se a minha mulher participa disto com naturalidade, o que mais estará disposta a fazer quando eu não estiver presente, com naturalidade? E muitas mulheres sentem-se pressionadas: recusar pode ser visto como “não ser de equipa”, como “não ser moderna”, como “ter problemas”.

Reflexão incómoda que ninguém quer fazer

A verdadeira equipa constrói-se com respeito, competência e objectivos comuns - não com frutas na pélvis e bocas a centímetros de zonas íntimas. Quando o team-building se torna indistinguível de um jogo de sedução colectiva, perdemos algo essencial: a dignidade do espaço profissional e a sacralidade do compromisso familiar.

Antes de organizarem a próxima actividade “divertida”, as empresas deviam perguntar-se: isto fortalece realmente a produtividade ou apenas normaliza a degradação subtil dos valores? E cada participante devia fazer a si mesmo uma pergunta mais dura: até onde estou disposto a ir em nome de “ser de equipa”?

Porque no final, o que fica não são as risadas do momento. Ficam as imagens. Ficam as dúvidas. E, por vezes, ficam os lares abalados, se não destruídos e acima de tudo, crianças sem os pais juntos, por causa de imagens que os pais nunca conseguiram justificar para convencer um ao outro. 

Que cada um reflicta: a diversão vale o preço da confiança destruída? Reflexão do Verbalyzador, para quem ainda ousa pensar para além da superfície viral.

Partilhe se esta realidade também o incomoda. A consciência começa no incómodo.

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