ENTRE O LANCHE PARTILHADO E AS NOITES NO MATO

Às Nossas Lindas Crianças de Moçambique e da África

No dia 1 de Junho de cada ano, Moçambique veste-se de cores, sorrisos e pequenos gestos de solidariedade. Nas escolas onde as famílias conseguem, os miúdos levam lanchinhos – bolachas, sumo, pão com manteiga ou o que o orçamento permitir – para partilharem com os professores e colegas. 

É um dia de convívio, de alegria colectiva, mas também, para muitas crianças do ensino primário, o último dia de aulas antes das longas férias que só terminam em Janeiro. É um costume enraizado em muitas comunidades moçambicanas: o dia em que a escola se transforma num espaço de partilha e de celebração antecipada das férias. 

No entanto, por trás dessa imagem colorida, esconde-se uma realidade mais complexa e desigual. 

O Lado Luminoso e o Lado Sombrio da Mesma Data

Para as crianças de famílias que podem, o 1 de Junho é sinónimo de festa. Levar o lanche, vestir a melhor farda, tirar fotos com os amigos e sentir o orgulho de terminar mais um ano lectivo. Mas para as crianças de famílias carenciadas, esse mesmo dia pode ser de ansiedade ou de humilhação silenciosa. Algumas não levam nada. Outras vão mesmo assim, confiando na partilha compassiva dos colegas ou na sensibilidade dos professores. Um pedaço de pão ou um gole de sumo partilhado salva não só a fome, mas também o sorriso e a dignidade naquele dia. 

Esse gesto simples de solidariedade revela o melhor do povo moçambicano: a capacidade de partilhar o pouco que se tem. Contudo, também expõe as profundas desigualdades sociais que persistem no nosso país. Enquanto uns celebram com abundância relativa, outros apenas sobrevivem. E há ainda aquelas que nem conseguem ir à escola, presas em ciclos de pobreza, trabalho infantil ou responsabilidades domésticas prematuras. 

Em Moçambique, o 1 de Junho marca o início da Quinzena da Criança, que se estende até ao Dia da Criança Africana, a 16 de Junho. É um período de reflexão sobre os direitos da infância, promovido por instituições como a UNICEF e o Governo. 

Mas a reflexão não pode ficar apenas nas celebrações. Deve confrontar-nos com as estatísticas incómodas: o acesso desigual à educação de qualidade, a desnutrição crónica e as barreiras que impedem milhares de crianças de sonharem um futuro melhor.

Quando Ir à Escola é um Risco de Vida

Enquanto em Moçambique debatemos lanches e partilhas, noutras partes do continente a realidade é brutalmente diferente. Recentemente, um post comovente nas redes sociais mostrou crianças nigerianas em uniforme escolar, deitadas no mato, passando a noite ao relento após um rapto em massa na escola. 

Imagens de meninas e meninos exaustos, deitados sobre folhas secas, com as mochilas como almofadas improvisadas, e o desespero no rosto de uma mãe em lágrimas. O "crime" dessas crianças? Terem ido à escola.

Esse contraste dói. Em Moçambique, muitas crianças terminam o ano lectivo com um lanche partilhado e a esperança das férias. Sob pena de haver crianças em Cabo Delgado que não gozem do mesmo, mesmo sabendo que o governo moçambicano tem lá também como seu território. 

Noutras latitudes africanas, ir à escola pode significar não voltar para casa. O terrorismo, o banditismo e a insegurança transformam o direito básico à educação num acto de coragem extrema. Essas crianças no mato não são estatísticas distantes. São o espelho cruel de um continente onde o potencial de milhões de meninos e meninas é truncado pela violência, pela pobreza extrema e pela fragilidade institucional. Enquanto uns pais se preocupam com o que colocar na merenda, outros rezam para que os filhos regressem vivos.

Uma Reflexão Humanizada e Necessária

O 1 de Junho não deve ser apenas um dia de festa. Deve ser um dia de introspecção colectiva. Como sociedade moçambicana, celebramos os avanços – mais crianças na escola, maior consciência dos direitos infantis, mas não podemos fechar os olhos às desproporcionalidades. O lanche que alegra uns e o mato que aterroriza outros são faces da mesma moeda: a vulnerabilidade da infância africana.

É preciso mais do que gestos individuais de compaixão. É urgente políticas públicas robustas que combatam a pobreza, garantam merendas escolares universais, melhorem a segurança nas comunidades e invistam na educação de qualidade para todos. É necessário que as famílias, as escolas, o Estado e a sociedade civil actuem em conjunto. Às crianças moçambicanas que hoje partilham o lanche: que o vosso sorriso seja o combustível para um amanhã melhor. 

Às que não têm o que levar: saibam que a vossa resiliência inspira. E às crianças raptadas ou em risco noutros cantos de África: que a solidariedade continental e internacional as traga de volta para os bancos da escola, onde devem estar.

No Dia Internacional da Criança, o verdadeiro tributo não é apenas celebrar os que podem. É lutar para que todos possam. Porque cada criança africana – moçambicana, nigeriana ou de qualquer outro país – merece não só um lanche, mas um futuro digno, seguro e pleno de oportunidades.

Que o 1 de Junho não seja só um dia bonito nas escolas. Que seja o dia em que renovamos o compromisso de construir uma África onde nenhuma criança durma no mato por ter ousado sonhar com a escola.

Verbalyzador – Reflexões que Humanizam.

Crianças raptadas por terroristas, algures na África. 


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