O SANGUE QUE ACORRENTA O PRÓPRIO SANGUE
O Abismo da Ganância que Devora a Humanidade
Numa noite qualquer em Mpape, Abuja, na Nigéria, a escuridão não veio apenas do céu. Veio de dentro de um coração humano. Uma mulher, reduzida a pele e osso, acorrentada como animal durante quatro longos anos pela própria família - pelo irmão de sangue, tudo em nome de rituais que prometiam riqueza fácil. A imagem dela, resgatada, com o olhar perdido e o corpo marcado pelo abandono, não é apenas chocante. É um espelho partido da nossa própria alma colectiva.
Este caso, que correu as redes sociais como um grito abafado, força-nos a parar e a reflectir profundamente: como é possível que o laço mais sagrado - o sangue familiar - se transforme na corrente mais cruel? Em Moçambique, como em grande parte do continente, histórias semelhantes sussurram nas sombras das conversas de machamba, nos mercados e nas noites de candeeiro, archote ou aquelas fogueiras fulminantes nos locais onde a EDM ainda não colonizou. Não são excepções isoladas. São sintomas de uma doença mais profunda: a ganância desmedida que transforma o ser humano em algo pior que besta.
O Preço da Prosperidade Ilusória
Pensemos nisso com honestidade brutal. Quantas vezes não ouvimos, aqui nas nossas terras, histórias de “curandeiros” que prometem fortunas em troca de sacrifícios absurdos? Até aqui no verbalyzador.blogspot.com abordamos bem a pouco temo sobre isso (vide no final do artigo, em: "Relacionados"), casos semelhantes. Um familiar “oferecido”, uma criança “entregue”, um corpo acorrentado à miséria para que outro brilhe.
A irmã de Abuja não foi vítima apenas de um homem mau. Foi vítima de uma mentalidade que infectou muitas comunidades: a ideia de que o sucesso deve vir depressa, sem suor, sem ética, através de atalhos espirituais que fedem a sangue e traição.
Esta não é uma questão apenas nigeriana. É africana. É humana. Em nome da “riqueza”, sacrificamos o que há de mais puro: a compaixão, a protecção familiar, o respeito pela dignidade do outro. O irmão que acorrenta a irmã não vê nela um ser humano. Vê um instrumento. Um meio para um fim. E nisso reside a tragédia maior: quando perdemos a capacidade de ver o Outro como extensão de nós mesmos, perdemos a própria humanidade.
Reflexão Sobre as Correntes Invisíveis
Mas paremos um momento e olhemos para dentro. Quantas correntes invisíveis carregamos nós mesmos? Correntes de inveja que nos impedem de celebrar o sucesso do vizinho. Correntes de silêncio cúmplice quando vemos injustiças nas nossas famílias e comunidades. Correntes de uma espiritualidade deturpada que mistura fé com feitiçaria, tradição com exploração.
Em Moçambique, terra de gente resiliente que sobreviveu a guerras, secas e esperanças adiadas, ainda cultivamos valores profundos de ubuntu - eu sou porque nós somos. No entanto, a modernidade líquida, o desespero económico e as promessas virais de enriquecimento rápido estão a corroer esses alicerces. O caso de Abuja é um alerta vermelho: se não cultivarmos a empatia, a educação moral e a justiça social, as correntes que hoje acorrentam uma irmã em Abuja amanhã podem manifestar-se nas nossas machambas, nos nossos bairros, nas nossas casas que tentam forçosamente nascer nas zonas de expansão.
O que faz um homem olhar para a irmã - que partilhou o mesmo útero, as mesmas brincadeiras de infância, as mesmas lágrimas - e decidir transformá-la em escrava de rituais? A resposta não está apenas na pobreza material. Está na pobreza espiritual. Na perda do sentido de que a verdadeira riqueza não se mede em notas ou carros, mas na integridade, nas relações sãs e na paz de consciência.
Um Chamado à Recuperação da Humanidade
Não basta condenar o algoz. É preciso curar a sociedade que o produziu. Educar as novas gerações para que o sucesso venha do esforço, da inovação e da solidariedade, não de correntes e sacrifícios humanos. Fortalecer as instituições que protegem os vulneráveis. E, acima de tudo, reacender nas igrejas, mesquitas, templos e lares a chama de uma espiritualidade autêntica, aquela que liberta, não a que escraviza.
A mulher resgatada em Abuja sobreviveu fisicamente, mas quantas feridas carregará na alma? E nós, que vimos as imagens e sentimos o aperto no peito, o que faremos com essa comoção? Vamos partilhar o horror e continuar como se nada fosse, ou vamos transformar esta dor em acção reflexiva?
Que este caso não seja apenas mais um trending topic. Que seja o espelho que nos obriga a quebrar as correntes invisíveis que ainda nos prendem: o egoísmo, o medo, a ganância cega. Porque, no fundo, acorrentar o outro é acorrentar-se a si mesmo. E libertar o outro é o primeiro passo para a nossa própria libertação.
A humanidade não se salva com rituais de sangue. Salva-se com amor que age, com justiça que protege e com consciência que desperta.
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| Homem acorrenta irmã por 4 anos em Abuja por rituais. |
Reflexão escrita com o coração pesado, mas com esperança no amanhecer possível para as nossas terras africanas. Veja o vídeo AQUI.
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