A LIBERDADE INCÓMODA DE SER UM CIDADÃO EXEMPLAR

O Que Significa Ser um Cidadão Exemplar

Ser honesto, não é ser tolo!
Lino TEBULO. 

Olhe para aquela placa. “DO NOT URINATE HERE”. Ela está ali, seca, imperativa, quase ofendida. Alguém, em algum momento, precisou escrever isto porque o óbvio deixou de ser praticado. E aqui nasce a primeira grande confusão sobre o que significa ser um cidadão exemplar. Muita gente acredita que basta não fazer o que a placa manda evitar. Não urinar ali. Não atirar lixo para o chão. Não gritar depois das dez. Não furar a fila. Não, não, não. Mas será que uma cidadania construída sobre a ausência de infrações é realmente exemplar? Ou será que ela é apenas o mínimo aceitável, um retrato medíocre de quem não causa dano mas também não acrescenta nada?

Ser um cidadão exemplar não é um estado de inocência passiva. É um exercício activo de presença no mundo. O indivíduo exemplar não precisa de uma placa a lembrar que o muro alheio não é um urinol. Ele já entendeu que o espaço público é uma extensão da sua própria dignidade e da dignidade dos outros. A placa é um fracasso colectivo, um atestado de que a civilização desistiu de ensinar e passou a ameaçar. Por isso, quando olhamos para aquela fotografia, o verdadeiro incómodo filosófico não está no acto de urinar fora do lugar. Está na pergunta silenciosa: quantas placas invisíveis regem a sua vida? Quantas coisas você deixa de fazer apenas porque há uma regra escrita, e não porque uma consciência desperta o impede?

Cidadão exemplar é aquele que devolve o carrinho do supermercado ao lugar mesmo sem fiscalização. É aquele que num debate online escolhe não humilhar o outro mesmo tendo argumentos para isso. É aquele que cede o lugar no transporte público antes que uma grávida precise pedir. São gestos pequenos, quase insignificantes na sua economia individual, mas gigantescos na sua repercussão colectiva. O filósofo francês Henri Lefebvre falava do “direito à cidade”, mas esqueceu-se de mencionar o dever de a habitar com delicadeza. Não há cidade justa sem cidadãos que praticam a bondade como um músculo, não como uma excepção.

Aqui convém desfazer um equívoco comum: ser exemplar não é ser perfeito. É ser coerente. O cidadão exemplar também falha, também tem pressa, também sente vontade de mandar o mundo à fava num dia de caos. A diferença é que ele reconhece a falha e não transforma o deslize em sistema. Ele não normaliza o “jeitinho”. Ele não cria justificativas poéticas para a falta de respeito. Ele sabe que a liberdade de um termina onde começa a placa do outro — mas vai mais longe: termina onde começa o desconforto evitável do outro, mesmo que nenhuma placa esteja ali a proteger esse desconforto.

Há uma dimensão esquecida na cidadania exemplar que é a coragem de corrigir sem humilhar. Vivemos tempos onde apontar o erro alheio se tornou espectáculo. Grava-se, expõe-se, viraliza-se. O cidadão exemplar, por outro lado, aborda o desconhecido que está prestes a urinar no muro e diz, baixinho: “amigo, o WC é logo ali”. Ele não precisa de uma audiência. Precisa apenas de restaurar a ordem sem destruir a pessoa. Porque a ordem sem compaixão é apenas tirania disfarçada de civismo.

E não se engane: isto é profundamente incómodo. Ser exemplar dá trabalho. Dá mais trabalho do que ser apenas cumpridor de regras. Exige atenção constante, uma vigilância doce sobre os próprios impulsos. Exige que se levante a voz contra a injustiça mesmo quando se está confortável. Exige que se recuse a compactuar com a corrupção miudinha do dia a dia — o troco que não é devolvido, o amigo que estaciona em cima do passeio e você finge que não viu. A cidadania exemplar é um caminho solitário, porque a maioria das pessoas contenta-se com a versão low cost do dever: não fazer mal aos olhos dos outros.

O que nos leva de volta à fotografia. Aquela placa, escrita em maiúsculas agressivas, é um símbolo de quantas coisas já desistimos de ensinar. Mas para o cidadão exemplar, ela é também um convite à ironia. Ele lê “DO NOT URINATE HERE” e pensa: ainda bem que me lembraste, porque a minha humanidade, por vezes, também esquece. E isso não o envergonha. Envergonha-o, sim, viver numa sociedade onde o respeito precisa de aviso. Por isso, ele vai além. Ele não urina ali, claro. Mas também não urina em lado nenhum que não seja o devido. E, mais importante, planta árvores onde ninguém pediu, ajuda sem testemunhas, e educa os seus com o exemplo, não com o medo de multas.

Ser um cidadão exemplar, afinal, é decidir que a sua liberdade vale tanto quanto a liberdade do outro, e que o espaço público não é um matagal onde cada um marca território. É um salão partilhado. E num salão partilhado, não se urina nos cantos. Aprende-se, antes, a cuidar do chão que todos pisam. Sem aplausos. Sem placas. Apenas porque sim.

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