A GUERRA É UMA LOUCURA SÉRIA: REALÍSTICO IGUALZINHO DOS FILMES DE HOLLYWOOD
O Tiroteio Cru no Mali que Expõe a Fragilidade Escancarada da África
No dia 26 de Julho de 2026, nas margens de Niono, no coração do Sahel maliano, um vídeo de pouco mais de dois minutos percorreu o mundo. Tropas do Corpo Africano Russo, em combate corpo a corpo com militantes do JNIM e grupos tuaregues, registaram o instante em que a guerra deixa de ser notícia e se torna respiração ofegante, suor, disparos e corpos no chão. “É insano assistir isto de perto. A guerra é louca.” A frase do jornalista que partilhou as imagens ecoa como um veredicto antigo e, ao mesmo tempo, terrivelmente actual.
Não se trata apenas de mais um episódio na longa e complexa guerra do Mali. Trata-se de um espelho que África inteira (e Moçambique em particular) é forçada a olhar. Quando estrangeiros se matam em solo africano, ou matam africanos em nome de interesses que raramente coincidem com os nossos, o silêncio das vítimas torna-se mais ensurdecedor do que o barulho das armas.
A proximidade da morte e a distância da consciência
O vídeo mostra o que os relatórios oficiais preferem esconder: a guerra não é estratégica nem glamourosa. É suja, imediata, quase doméstica. Homens escondidos atrás de arbustos, motas abandonadas, um corpo estendido sob o sol de Julho. Oito combatentes eliminados, segundo o comunicado do próprio Corpo Africano. Oito vidas interrompidas num dia qualquer. E nós, do outro lado do continente, assistimos com a mesma facilidade com que mudamos de canal.
Esta facilidade é o verdadeiro escândalo. A tecnologia que nos permite ver a morte em alta definição também nos anestesia. Transformamos o horror em conteúdo. E o conteúdo, por sua vez, alimenta a nossa indiferença. Entre a voz que grita “olhem!” e o silêncio que responde “já vimos demais”, escolhemos, quase sempre, o segundo.
Moçambique conhece bem este abismo. Da guerra civil que dilacerou gerações ao conflito em Cabo Delgado, sabemos o que significa ver a morte chegar de longe e, depois, instalar-se na vizinhança. Sabemos também o preço de convidar forças externas para resolver problemas que são, em essência, nossos. A história africana está saturada de “parceiros estratégicos” que chegam com armas e partem com minérios, deixando atrás de si cemitérios e dependências.
O Sahel como metáfora de um continente
O Sahel não é apenas uma faixa geográfica. É a metáfora perfeita de uma África que continua a ser campo de batalha de interesses alheios. Rússia, França, Estados Unidos, grupos jihadistas, separatismos tuaregues - todos reivindicam fatias de um território que, no fim, pertence aos pastores, aos agricultores, às mulheres que carregam água e às crianças que aprendem a correr antes de aprender a ler.
Quando o Corpo Africano Russo combate o JNIM, não está apenas a combater o terrorismo. Está a inscrever-se numa narrativa antiga: a de que África precisa de salvadores. E cada salvador, por mais eficiente que seja no campo de batalha, deixa a sua marca indelével na soberania e na dignidade do povo.
A pergunta que o vídeo nos lança (e que o verbalyzador se recusa a silenciar) é simples e devastadora: até quando permitiremos que a nossa terra seja o teatro onde outros ensaiam as suas guerras?
Entre a voz e o silêncio
Há um silêncio que é covardia e há um silêncio que é lucidez. O silêncio escolhido, aquele que nasce depois de se ter olhado o abismo de frente, é o que permite a vitalidade. É o silêncio que recusa a espetacularização da morte e exige a dignidade da vida.
Não se trata de romantizar a paz nem de ignorar a complexidade das ameaças reais. O JNIM existe. O terrorismo existe. A insegurança existe. Mas existe também a responsabilidade de perguntar: quem lucra com a eternização do conflito? Quem vende as armas? Quem extrai o ouro enquanto os corpos caem?
África não precisa de mais espectadores. Precisa de testemunhas conscientes. De vozes que se recusam a transformar a tragédia alheia em entretenimento. De silêncios que, depois de terem gritado, escolhem o caminho da reconstrução.
O tiroteio de Niono já terminou. Os corpos já foram contados. O vídeo continua a circular. E nós, aqui em Palma, em qualquer canto deste continente ferido, temos uma escolha: continuar a assistir de perto a loucura alheia ou começar, finalmente, a cuidar da nossa própria sanidade colectiva.
A guerra é louca.
A indiferença, porém, é ainda mais perigosa.
Porque a indiferença não faz barulho.
E é no silêncio que as feridas mais profundas se infectam.
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| Sangue à Queima-Roupa no Sahel e a Ferida que África Já Não Pode Esconder. |
Assista o vídeo AQUI.

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