PAGANDO A CONTA DE UMA FESTA QUE JÁ ACABOU
Num país onde as cheias arrasam casas e colheitas, a solidariedade é sempre bem-vinda. Quando a Primeira-Dama da República anuncia a oferta de capulanas a todas as mulheres moçambicanas como gesto de apoio às vítimas das recentes cheias na zona sul, o gesto, em si, carrega simbolismo e tradição. Mas o simbolismo não estanca hemorragias. A tradição não entala um osso partido. E é neste hiato entre o gesto político e a realidade nua dos hospitais públicos que emerge a voz lúcida e corajosa de uma profissional de saúde.
O seu desabafo não é apenas um pedido; é uma pergunta incómoda que ecoa pelos corredores vazios do Sistema Nacional de Saúde: valerá mais a pena vestir a mulher moçambicana de capulana do que vestir a enfermeira de condições dignas para trabalhar?
O texto que se segue não fala apenas de falta de material. Fala de prioridades. Fala de um país onde se anuncia a distribuição de panos enquanto, nos hospitais, se anuncia a morte anunciada por falta de luvas, bisturis e medicamentos. Fala da contradição entre o discurso que embeleza e a realidade que sangra.
No mês de Abril, não queremos Capulana❌❌
Queremos LUVAS para trabalhar!✅✅Pois Está cada dia mais difícil informar aos pacientes que eles devem trazer luvas para serem atendidos.
Que essa necessidade seja compreendida e atendida imediatamente!
- Não temos luvas.
- Não temos ligaduras.
- Não temos medicamentos.
- Não temos bisturis.
- Não temos comprensas
- Não temos gesso.
- Não temos receituário.
- Não temos sequer papel A4.
Juramos exercer a nossa profissão em qualquer circunstância, com dedicação e compromisso com a vida.
Mas nunca imaginámos que uma dessas circunstâncias seria trabalhar colocando em risco a nossa própria vida, por falta de condições básicas de trabalho.
Cuidar de vidas exige responsabilidade, mas também condições mínimas para proteger quem cuida e quem é cuidado.
Esta profissional de saúde não está apenas a listar carências. Ela está a estabelecer uma hierarquia de necessidades que expõe o desfasamento entre as prioridades do Estado e as urgências do povo. Enquanto se anuncia a distribuição massiva de capulanas — um gesto sem dúvida importante para o resgate da dignidade das mulheres afectadas pelas cheias —, pergunta-se, nas entrelinhas, se os recursos canalizados para essa iniciativa não poderiam, ainda que parcialmente, suprir o défice gritante de material hospitalar que coloca em risco a vida de profissionais e pacientes.
O contraditório é cruel: a mesma mulher que recebe a capulana das mãos da Primeira-Dama pode, dias depois, dirigir-se a uma unidade sanitária e ser atendida por uma profissional sem luvas, sem medicamentos, sem condições. A capulana cobre o corpo, mas não cobre a ferida que infecciona por falta de penso. A capulana aquece a alma, mas não aquece a esperança de quem espera por um parto seguro sem condições básicas.
Não se trata, note-se bem, de diminuir o valor simbólico e cultural da capulana, nem de desmerecer a intenção solidária do gesto. Trata-se, isso sim, de questionar o modelo de governação que privilegia o simbólico em detrimento do estrutural. Trata-se de perguntar, com a frieza que os números exigem, quanto custa cada capulana distribuída e quantas caixas de luvas cirúrgicas esse montante representaria.
O grito desta profissional de saúde é, no fundo, o grito de um país que se habituou a viver de gestos enquanto o essencial se degrada. A capulana entrará para a história como símbolo de uma solidariedade pontual; a falta de luvas, infelizmente, entrará para a estatística das mortes evitáveis. Enquanto não compreendermos que cuidar de quem cuida é a forma mais eficaz de cuidar de quem precisa de ser cuidado, continuaremos a assistir ao espetáculo contraditório de um país que oferece panos com uma mão enquanto, com a outra, empurra os seus profissionais de saúde para o risco e para o desespero.
Que esta voz não seja abafada. Que ela ecoe não apenas nos blogues e nas redes sociais, mas nos corredores do poder, onde as decisões sobre o que é realmente prioritário são tomadas. Porque, no fim do dia, a verdade é esta: uma capulana não entala um osso partido, não cose um ferimento profundo, não traz uma vida ao mundo em segurança. Isso, só o faz quem tem luvas, bisturis e condições para tal.
Neste 8 de Março de 2026, celebramos as mulheres moçambicanas na sua complexidade e na sua luta. Celebramos as que recebem capulanas como gesto de solidariedade, mas celebramos, sobretudo, as que vestem batas e enfrentam, todos os dias, a coragem de cuidar num sistema que as desampara. Às profissionais de saúde que ousam levantar a voz, o nosso reconhecimento profundo. Que a vossa coragem nos inspire a exigir um país onde o essencial não seja substituído pelo simbólico, onde as prioridades sejam medidas pela urgência de salvar vidas e não pela conveniência de sorrir para as câmaras.
Parabéns a todas as mulheres moçambicanas. Que continuem a ser a força que questiona, a voz que denuncia e as mãos que constroem — mesmo quando lhes faltam as luvas para o fazer. ✊🏾🌺
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