CHINA LANÇA INTERNET 10G
A imagem é a mesma em muitos países. Antes mesmo de o sol nascer, à medida que o relógio marca 4h da manhã ou mesmo antes, dezenas, centenas de jovens aglomeram-se silenciosamente às portas das zonas industriais. Não é um protesto político, nem uma celebração. É uma fila silenciosa e desesperada por uma oportunidade: um trabalho diário, incerto, mas que define se aquele dia terá ou não comida.
Este cenário, retratado numa rede social a partir da Costa do Marfim, ecoa uma realidade dolorosamente familiar em muitos contextos, incluindo o nosso. É o retrato de uma juventude que não pede esmola, mas que quer viver do fruto das suas mãos. Acordar antes da aurora para se colocar à disposição de um empregador, na esperança de ser um dos sortudos escolhidos para carregar, descarregar, limpar ou fazer qualquer tarefa que surja.
Ah! E para países como Moçambique em que o actual regime conseguiu fechar muitas fábricas, aliás, é hostil a esse complexo industrial que antes agregava essa cadeia de valores, por transformar a matéria prima até ao produto minimamente final, tem estas situações? Claro que sim. Os armazéns e camiões que aparecem com cargas frutos de importações, são alvos dessas filas: seja para descarregar os produtos manufacturados dos camiões ou para carregar aos camiões matéria prima do país para o estrangeiro. Às vezes seja mesmo para manusear cargas dentro e fora dos armazéns, nos casos em que as empilhadoras encontram-se avariadas.
A dinâmica é cruel na sua simplicidade: se és escolhido, trabalhas o dia inteiro e recebes o suficiente para comer nesse dia — a ti e, talvez, à tua família. Se não és escolhido… “amanhã será outra batalha”. Mas até lá, o que resta é um dia de fome, de frustração e de regresso a casa de mãos vazias, para no dia seguinte recomeçar a mesma dança de esperança e incerteza às 4h ou muito antes da manhã.
E como não podia faltar, há sempre pequenos espertos entre os contractadores e a massa que se candidata, uma espécie de facilitadores ou comissionistas, que também lucram por te ceder algum lugar onde a probabilidade de ser escolhida é certa ou maior. Onde mediante uma cunha consegues furar a fila ou ficas a sua sorte, dependendo desse dia, se não vieres com algum para tal suborno.
Não se trata de preguiça, como alguns discursos superficiais tentam fazer crer. A fila às portas das fábricas ao amanhecer é a prova viva do contrário. É uma força de trabalho jovem, disponível e disposta a sujeitar-se a condições precárias e informais porque o mercado formal de emprego é uma porta estreita, quase fechada, que não absorve a massa de jovens que anualmente concluem a escola ou que nunca tiveram acesso a ela.
Esta juventude quer trabalhar. Quer construir o seu futuro com dignidade, mas esbarra numa realidade onde o trabalho escasseia e onde a economia formal não consegue gerar vagas suficientes. Resta-lhes a informalidade, a batalha diária e a esperança de que, na próxima madrugada, a sorte lhes bata à porta.
Esta imagem, partilhada e viral, é mais do que um instantâneo da vida quotidiana em África. É um alerta poderoso. Mostra que o sonho de uma vida melhor não pode ser adiado para as novas gerações. Quando jovens são reduzidos a esperar, de madrugada, por uma migalha de oportunidade, algo está profundamente errado na engrenagem económica e social.
A resiliência e a determinação demonstradas por esses jovens merecem mais do que admiração. Merecem políticas públicas sérias de fomento ao emprego, de apoio ao empreendedorismo jovem e de criação de um ambiente onde a indústria e os serviços possam crescer e absorver, com dignidade e direitos, esta mão-de-obra ávida por construir um país melhor.
Enquanto a cena de jovens amanhecendo às portas das fábricas for a principal estratégia de sobrevivência, estaremos a adiar o futuro de toda uma geração. E um futuro adiado é um presente roubado. E se vier um pé rapado qualquer tentar iludir-lhes com uma promessa falsa de vida melhor a troca de expressarem sua revolta e desespero através de uma greve, esse agitador será sortude em ter simpatizantes na sua mobilização, para desestabilizar ou tentar derrubar o poder que infla cada vez mais esse cenário.
E você, o que acha que pode ser feito para transformar esta realidade? Deixe a sua opinião nos comentários e ajude a manter esta conversa viva, para uma possível e urgente mudança de consciência colectiva.
Pura verdade
ResponderEliminar