OS LIMITES DA JUSTIÇA NAS RUAS
Por que a 'punição popular' com as próprias mãos é uma tragédia colectiva
Vemos com frequência, nos bairros das nossas cidades e vilas, cenas como a da imagem: um homem amarrado a um poste, com as mãos atadas atrás das costas, exposto à humilhação pública, muitas vezes rodeado por uma multidão indignada. Esta cena, infelizmente familiar em muitos contextos moçambicanos, especialmente onde o Estado de Direito parece distante e a criminalidade, corrói a paz das famílias, não representa uma solução para o crime, mas sim o retrato mais sombrio do fracasso da nossa justiça social. Falemos abertamente sobre o que realmente significa esta "justiça pelas próprias mãos" e por que precisamos urgentemente romper com ela.
O Grave Perigo da Justiça pelas Próprias Mãos
Quando os moradores de um bairro decidem amarrar um suposto criminoso a um poste, estão a agir movidos por um sentimento legítimo: o cansaço e a frustração. A população está farta da insegurança, sente-se desprotegida e assiste, impotente, a uma criminalidade que cresce sem consequências reais. No entanto, usar as próprias mãos para prender alguém transforma a comunidade em vítima e algoz ao mesmo tempo.
O maior perigo escondido nesta imagem não é apenas o castigo físico, mas a absoluta ausência de provas. Muitas das pessoas que já foram amarradas em bairros moçambicanos eram simples cidadãos com problemas de saúde mental, indivíduos em crise de abstinência alcoólica ou até mesmo inocentes confundidos com o verdadeiro ladrão.
A justiça popular não tem tribunal, não tem júri e não tem direito à defesa. O laço que aperta o corpo é o mesmo que estrangula a verdade. Ao substituirmos a lei pelos nossos punhos, corremos o risco de cometer uma injustiça ainda maior do que o crime que queremos punir.
A Violação dos Direitos Humanos e Legais
É essencial que todos compreendam que, por mais grave que seja o delito cometido, amarrar alguém, brutalmente espancá-lo ou até queimar com gasolina ou numa roda, arrancar as unhas ou dentes e qualquer órgão, etc é um crime.
Do ponto de vista legal e dos direitos humanos fundamentais, qualquer pessoa, mesmo um alegado criminoso, tem o direito inalienável à sua dignidade e a um julgamento justo. O que vemos na imagem é uma detenção ilegal, sequestro e tortura psicológica. Em Moçambique, a nossa Constituição e as leis internacionais que assinamos proíbem tratamentos desumanos e degradantes.
O acto de amarrar as mãos com força, expor a pessoa ao escárnio público e deixá-la sujeita a agressões da multidão não corrige o erro, apenas cria uma nova vítima. Este modelo de "correcção" não ensina nada a ninguém, apenas normaliza a violência, ensinando as crianças do bairro que a força bruta é a única forma de resolver conflitos. Estamos a criar uma geração que acredita que a punição pública é a lei da rua. Infelizmente, não conseguem submeter a esse tipo de punição aos dirigentes que mal vos roubam sonhos e o futuro de gerações inteira.
As Alternativas para a Educação Comunitária
Não basta condenar sem sugerir soluções. Para quebrarmos este ciclo de violência, a educação comunitária deve ter um papel central. Não podemos ficar de braços cruzados a esperar que a polícia chegue a todos os cantos. Precisamos de alternativas práticas e imediatas nos bairros. Uma excelente ferramenta é a criação de Conselhos Comunitários de Justiça e Mediação que realmente sirvam ao povo e não apenas acomodar pessoas que pesam na massa salarial do Estado em vão.
Nestes espaços, líderes de bairro, anciãos, agentes comunitários de saúde e moradores comuns sentam-se para discutir os casos com os envolvidos, antes que se chegue ao ponto de amarrar alguém. Pequenas brigas, furtos não violentos e desavenças podem ser resolvidos com diálogo, reparação do dano e prestação de serviços à comunidade, em vez do chicote e do poste.
Outra acção urgente é a capacitação dos moradores para a intervenção em crise. Muitos amarrados são pessoas com crises psiquiátricas ou dependentes químicos. Ensinar os bairros a identificar estes casos e a encaminhá-los para unidades de saúde ou para a assistência social, em vez de os amarrar, salva vidas e evita que inocentes sejam linchados.
Rompendo o Ciclo com Acção Cidadã
O homem amarrado na imagem e outros, é um grito silencioso de que a nossa sociedade falhou como um todo. A sua dor não é apenas dele, mas de todos nós. Para que esta imagem não volte a repetir-se, o caminho não é justificar a acção dos moradores, mas sim exigir mais do Estado e fazer mais enquanto comunidade.
É imperativo que as autoridades policiais cheguem ao local com rapidez sempre que há um alarme, mas cabe também aos vizinhos a coragem de não olhar para o lado. Diante de um homem amarrado, a acção de um cidadão não deve ser a de segurar a corda, mas a de cortá-la mentalmente: telefonar para o número de emergência, tentar acalmar os ânimos da multidão e proteger a integridade física da pessoa, mesmo que ela seja culpada.
A punição popular não é uma solução, é um sintoma de uma sociedade doente. Construir paz nos nossos bairros exige paciência, leis fortes, educação e, acima de tudo, a coragem de acreditar que a justiça verdadeira só se alcança com direitos, não com as nossas próprias mãos.
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