5 MINUTOS DEPOIS DE MORRER DE FOME

A Comida que não Salva o Vivo, mas Alimenta os que Sentem pelo Morto

Há verdades que doem mais que a própria fome. Imaginemos: um ser humano esgota-se lentamente, dia após dia, sem ter o que comer. O corpo fraqueja, a força desaparece, a vida esvai-se em silêncio. Morre de fome. E, cinco minutos depois ou poucas horas, o quintal enche-se de gente, de fogo aceso, de panelas enormes fumegando, de sacos de farinha, de arroz e de tudo quanto é ingrediente. As mulheres mexem com vigor, o fumo sobe, o cheiro espalha-se. Prepara-se um banquete.

Não para quem partiu. Mas para os que ficam. 

Esta imagem não é apenas uma cena de cozinha colectiva. É um espelho incómodo da nossa condição humana. Morre-se de fome na mesma comunidade onde, depois da morte, se mobilizam vizinhos, familiares, amigos e conhecidos para trazerem comida em abundância. Cozinha-se para o terceiro dia. Cozinha-se para o quadragésimo dia. Cozinha-se como manda a tradição, com dignidade e respeito ao falecido.

E a pergunta que fica a ecoar, pesada como uma pedra no peito: porque não se mobilizou essa mesma energia, essa mesma generosidade, essa mesma abundância de comida enquanto a pessoa ainda respirava? Porque é mais fácil e mais visível, alimentar a dor dos vivos do que prevenir a morte silenciosa de quem sofre ao nosso lado?

Esta não é uma acusação. É uma reflexão profunda sobre o paradoxo que carregamos. Nas nossas culturas, o luto é comunitário. A solidariedade aparece forte quando a morte bate à porta. Reúne-se gente, conta-se história, chora-se junto e come-se também. É acto de humanidade, de continuidade da vida, de não deixar a família sozinha. Mas essa mesma cultura, por vezes, parece chegar tarde demais para quem agoniza em vida.

A fome não pede cerimónia. Ela mata discretamente, longe das panelas grandes e dos fogos colectivos. E quando finalmente chega o momento das panelas, o falecido já não pode provar nem um grão. A comida que poderia ter sustentado uma vida transforma-se em refeição de memória.

Isto revela algo doloroso sobre nós: temos uma extraordinária capacidade de nos unirmos na dor, mas por vezes falhamos na prevenção dessa dor. Mobilizamo-nos para enterrar com dignidade, mas hesitamos em estender a mão a tempo de evitar o enterro. O fogo acende-se depois da tragédia, não antes.

E no entanto, há beleza nessa resiliência cultural. Há grandeza no gesto de não abandonar os que ficam. Há lição na forma como as comunidades se organizam, partilham o pouco que têm e transformam a ausência em momento de encontro. O problema não está na tradição de cozinhar para os enlutados. O problema está quando essa tradição se torna o único momento de abundância, enquanto a fome quotidiana passa despercebida ou normalizada.

Que lição tiramos então? Talvez a de que a verdadeira homenagem a quem parte não seja apenas a comida depois da morte, mas a compaixão enquanto se vive. Que o fogo que acendemos para as cerimónias pudesse, em vida, aquecer a panela de quem tem fome ao nosso lado. Que a mobilização que fazemos para o luto fosse feita também para a vida.

Porque cinco minutos depois de alguém morrer de fome, o mundo continua a cozinhar. Mas cinco minutos antes, ainda havia tempo para salvar.

Olhemos com mais atenção para quem enfraquece hoje. Não esperemos que a morte convoque a nossa generosidade. Que a nossa cultura de solidariedade seja tão forte na prevenção como é no consolo. Porque alimentar os vivos é, afinal, a mais sincera forma de honrar os que partem.

Enquanto houver fogo aceso e panelas a ferver, que seja também para os que ainda respiram. A fome não espera pela cerimónia. E nós não deveríamos esperar também.



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