O DECLÍNIO DA TERCEIRA IDADE EM MOÇAMBIQUE
Quando envelhecer vira sentença de morte por feitiçaria!
O envelhecimento é uma certeza inevitável da vida. O chamado "Declínio da Terceira Idade" traduz-se na perda progressiva das capacidades físicas, cognitivas e funcionais que surgem com o avançar dos anos. Em várias partes do mundo, esta fase é gerida com cuidados médicos, geriatria e redes de apoio familiar.
Contudo, nas comunidades de Moçambique e em grande parte do continente africano, o declínio biológico deixou de ser um caso de saúde pública para se transformar num autêntico tribunal tradicional de vida ou morte.
O Paradoxo Africano: De "Bibliotecas Vivas" a Alvos de Caça às Bruxas
Historicamente, a nossa tradição oral sempre nos ensinou a olhar para o idoso como um acervo sagrado, uma verdadeira biblioteca viva cheia de sabedoria e memória histórica. Mas a realidade atual nas nossas províncias ferve num caldeirão de obscuridade e ignorância colectiva.
Hoje, o enfraquecimento do corpo do idoso, os lapsos de memória provocados pela demência e o comportamento confuso decorrente do declínio cognitivo já não são vistos como patologias. São rotulados, friamente, como sinais de feitiçaria e bruxaria.
O Crime da Longevidade: O Ódio Contra Quem Sobrevive
O cenário atinge contornos de terror quando a própria comunidade e os familiares consanguíneos começam a julgar a longevidade dos mais velhos. Vivemos num ecossistema onde a morte prematura de crianças e jovens, muitas vezes ligada à malária, cólera ou desnutrição, é imediatamente justificada por teorias da conspiração mística.
O raciocínio das comunidades é tão absurdo quanto cruel:
- Se um jovem morre e o idoso continua vivo, diz-se que o velho está a "chupar a energia vital" da juventude.
- A longevidade é vista como uma prova de pactos obscuros e rituais macabros para prolongar a vida às custas do sangue dos netos.
- A vulnerabilidade física é interpretada como o "peso do remorso" ou o cansaço de quem "voa à noite".
Do Abandono ao Sangue: As Consequências Reais do Estigma
Esta confusão mental e cultural provoca danos irreversíveis na nossa fibra social. Centenas de idosos moçambicanos são expulsos dos seus lares pelos próprios filhos e condenados ao abandono total, à mendicidade e à fome profunda.
Mas o horror vai mais longe. O preconceito gera linchamentos bárbaros. Velhos e velhas indefesos são brutalmente agredidos, queimados vivos e assassinados nas zonas rurais e suburbanas sob a acusação de trazerem má sorte, secas ou doenças para as famílias. Onde devia reinar o cuidado e o respeito pelo declínio natural, impera a lâmina do preconceito.
Resgatar a Dignidade Antes que o Tempo Apague a Nossa História
O declínio da terceira idade necessita de hospitais, assistência social e compaixão, e nunca de acusações infundadas de práticas obscuras. Enquanto a sociedade moçambicana continuar a assassinar e a discriminar as suas mentes mais experientes, estaremos a queimar os nossos próprios livros de história e a destruir a nossa identidade ancestral.
É urgente desmistificar a biologia do envelhecimento para salvar as nossas verdadeiras bibliotecas orais do fogo da ignorância.
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