O ORGULHO QUE CHOCA A SOCIEDADE PODRE
“Limpar Rabos” dá Mais Dignidade do que Roubar Jatos e/ou o Futuro de um Povo
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| Retrato de uma enfermeira que cuida de idosos e vulneráveis |
Às vezes tenho vergonha da forma como algumas dessas informações chegam, mas o que me motiva é publicar e partilhar, embora de forma evasiva, a profundidade da mensagem que esses textos, links e publicações trazem ao povo moçambicano que ousa acessar e nos apoiar directamente e indirectamente através dos sucessivos compartilhamos, mesmo sem os ler. Desde já, MUITO OBRIGADO PELO SUPORTE E PROCUREM SE INSCREVER NO BLOGUE PARA MAIS SEGUIMENTO E MORAL.
Nos últimos dias, uma publicação em espanhol viralizou silenciosamente, mas fez estremecer quem ainda tem alma. Uma profissional da saúde – técnica de enfermagem ou cuidadora – escreveu, sem filtros: “Tenho orgulho em limpar culos” (rabo, na nossa língua). Ou melhor, traduzindo de forma bruta: "tenho orgulho de limpar cús", espero que a Google não nos sencione, que é sobre saúde pública e isso importa - salve o algoritmo este tema nas directrizes de violação de políticas, etc.
Confesso: à primeira vista, até eu estranhei. Em Moçambique, não estamos habituados a ouvir tamanha nudez verbal. Preferimos enfeitar a pobreza, maquilhar a morte, perfumar a hipocrisia. Mas depois li melhor. E entendi tudo ainda com pobre experiência do pouco espanhol em mente, já há monte de ferramentas para limar dúvidas.
Ela não está a exibir sujidade. Está a esfregar na nossa cara o espelho que recusamos olhar.
O choque do leitor: “Vi ladrões de jatos, prostitutas de luxo, mas nunca alguém com orgulho nisto”
O leitor que me trouxe este texto confessou a sua perplexidade, citando exemplos reais da podridão glamorizada:
· Ladrões que roubam milhões e desfilam com mulheres lindas em hiates.
· Assassinos e traficantes que trocam vidas destruídas por monções e jatos.
· Prostitutas que transformam o suor do corpo em ostentação.
E pergunta: “Como é que alguém pode ter orgulho em limpar rabos?” Eu também ri e depois froxei por instantes e tive que ligar para alguns amigos médicos e infermeiros, para depois buscar em pesquisas superficiais sobre o facto nos vários motores de busca electrónica, para ter uma opinião moderada e aguçada. Daí formular o seguinte argumento...
A pergunta, meus caros, está ao contrário. A pergunta verdadeira é:
Como é que uma sociedade aplaude quem mata, rouba e engana, mas despreza quem limpa a miséria alheia com amor?
A filosofia que o Verbalyzador nunca ousou escrever
Tudo tendo a sua primária vez é num mundo onde o valor de uma pessoa se mede pelo tamanho do carro, do saldo bancário ou do número de seguidores, uma mulher com luvas e um balde de água morna acaba de dar uma lição que nenhum intelectual da cidade consegue dar.
“Limpar o rabo a um idoso que já não pode fazer nada sozinho não é nojo. É o acto mais humano possível. É dizer: ‘Você ainda é gente. Eu cuido de si. Ainda que os seus parentes se afastem por razões que não me interessam. Mas a sua saúde é o meu orgulho, agora!’”
Ela não tem vergonha. Tem coragem. Enquanto muitos de nós usamos eufemismos – “assistência pessoal”, “cuidados íntimos” – ela usa a palavra crua para nos obrigar a sentir o peso real da dignidade.
Comparação incómoda: o bandido de iate vs. a cuidadora de bacia
Pense comigo, caro leitor do Sul, Centro ou Norte de Moçambique, Angola, São Tomé, Brasil e o resto do mundo, onde podemos chegar ou nos fazem lá alcançar almas, através de várias plataformas e redes virtuais interativas:
O bandido de sucesso (traficante, político, ass@ssino), vive no luxo mas semeia luto, os filhos têm medo dele, é “respeitado” por medo, e o seu orgulho é falso, comprado com sangue; já a cuidadora anónima (enfermeira) vive no anonimato mas semeia conforto, os idosos sorriem com ela, é desprezada por “nojo”, mas o orgulho dela é real, conquistado com suor e fezes, salvando vidas e almas.
Se não tem algum juízo de valor sobre tal questão, empreste alguma consciência elevada e observe o trecho acima, novamente, com mais atenção, moderação e perseverança. Agora me diga: quem tem mais valor ético?
Em fim, há razão do nosso amigo ter ficado perplexo e de tal forma porque, no fundo, ele nunca tinha ouvido ninguém dizer a verdade nua e crua, e nem eu sobre isso, particularmente. Estamos tão habituados à máscara social que, quando alguém a tira, achamos que está louca.
Mas não está. Ela é a pessoa mais lúcida da sala.
Por isso, se você um dia precisar que lhe limpem o rabo – porque a velhice ou a doença chegam para todos, lembre-se desta mulher. E agradeça. Porque ela estará lá, com orgulho, a fazer o que muitos “homens de sucesso” nunca fariam: tocar no que ninguém quer ver, para que o outro viva com dignidade.
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| O trabalho mais humano do mundo não dá iate, mas dá alma. |
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Senti a, necessidade de escrever esta mensagem para dar mais força pelo seu trabalho. Ora vejamos só que em muitas das regiões donde se escrevem estas mensagens pejorativas, nem se quer conseguem pensar que há que criar se condições para se cuidar desta gente em idade avançada. Essas mensagens são perfeitamente o sinónimo de uma pobreza mental.
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