O CRIMINOSO QUE ESCOLHEU MORRER COM DIGNIDADE

 “Tenho 55 anos, não vou disputar a fila com uma criança de 10”

Em 2009, Mark Brandon “Chopper” Read, homem de vida marcada por violência, prisões longas e reputação de “standover man” na Austrália, revelou que o seu fígado estava destruído. Os médicos ofereciam-lhe uma hipótese de sobrevivência através de transplante. Ele recusou, de forma clara e sem rodeios: não queria disputar um órgão com uma criança de dez anos.

Não foi um gesto de marketing. Não foi uma declaração para ganhar simpatia. Foi uma decisão tomada quando a morte já batia à porta. Read viveu mais quatro anos, continuou a escrever e a aparecer em público, sabendo que a sua recusa era irreversível.

O que os comentários revelam sobre nós

Nas redes, a reação foi quase unânime na surpresa: “Morrer como homem é o prêmio da guerra”, “teve consciência”, “pelo menos teve consciência”. Outros ironizaram com figuras públicas conhecidas, sugerindo que “aprende Fausto Silva” ou que até quem vive sob holofotes poderia aprender com aquela humildade final. Houve quem questionasse a compatibilidade técnica (um fígado adulto inteiro raramente é transplantado em criança), mas a essência do debate girou sempre em torno da mesma ideia: como é possível que um criminoso demonstre mais sentido de justiça do que muitos que se dizem “respeitáveis”?

Este espanto colectivo é revelador. Esperamos que criminosos sejam egoístas até ao fim. Quando um deles age de forma oposta, ficamos desarmados. A generosidade, quando vem de quem “não devia” ser generoso, ganha peso extra. E por que não escrever sobre isso, ainda que seja repetido? 

E se fosse um dirigente político, particularmente negro?

Aqui entra a pergunta incómoda que o caso inevitavelmente levanta. Não se trata de racismo ou pessimismo. Se a mesma frase – “Tenho 55 anos, não vou disputar a fila com uma criança de 10” – tivesse sido dita por um dirigente político negro, em Moçambique, no Brasil ou em qualquer outro país lusófono, a reação seria a mesma? 

Provavelmente não. Parte da sociedade celebraria o gesto como prova de grandeza moral. Outra parte, talvez maior, questionaria imediatamente as motivações: “É estratégia?”, “Está a tentar limpar a imagem?”, “Por que só agora?”. 

O passado político, real ou construído, seria usado para descredibilizar o acto, mesmo sabendo que existe uma criança na fila. A identidade racial e o cargo de poder funcionariam como filtros: o que é lido como “humanidade rara” num criminoso branco marginalizado torna-se, em muitos casos, “cinismo calculado” quando vem de um homem negro com autoridade.

É este o padrão duplo que o caso de Read expõe sem pretender fazê-lo. Admiramos a redenção quando ela surge de quem já foi condenado pela sociedade. Quando surge de quem detém poder, e especialmente quando esse poder está associado a uma identidade historicamente estigmatizada, tornamo-nos céticos, desconfiados, selectivos na generosidade do nosso julgamento.

Aceitamos mais facilmente que um “bandido” tenha um momento de grandeza do que um político negro demonstre integridade sem segundas intenções.

O que realmente está em jogo

A alocação de órgãos obedece a critérios médicos que, em muitos países, já priorizam crianças e jovens precisamente porque maximizam os anos de vida ganhos. Read não inventou essa regra. Ele apenas a reconheceu publicamente e decidiu não se colocar na frente dela. O seu gesto não apaga os crimes cometidos. Também não transforma automaticamente um homem violento num santo. 

Mas obriga-nos a confrontar uma verdade incômoda: a capacidade de colocar o outro à frente de si mesmo, mesmo à beira da morte, não depende da cor da pele, do cargo que se ocupa nem do saldo da conta bancária. Depende de algo mais profundo e mais raro: a consciência de que a própria vida não é o bem mais valioso que se pode oferecer.

Em Moçambique e em tantos outros lugares, continuamos a avaliar as pessoas mais pela etiqueta que lhes colamos (criminoso, político, negro, branco, poderoso, marginal) do que pelo conteúdo concreto das suas escolhas. O caso de Mark “Chopper” Read, por mais distante que pareça, funciona como espelho. Mostra que a verdadeira grandeza moral pode aparecer nos sítios mais inesperados. E, ao mesmo tempo, recorda-nos que a nossa disposição para reconhecê-la depende, muitas vezes, de quem está a praticá-la.

Se aplicássemos o mesmo critério de julgamento a todos, independentemente de raça, função ou história passada, talvez descobríssemos que gestos de generosidade radical são mais frequentes do que imaginamos. E que a nossa recusa em aceitá-los quando vêm de certos perfis diz mais sobre nós do que sobre eles. A criança de dez anos que Read decidiu não “disputar” nunca soube do seu nome. 

Mas o exemplo dele continua a confrontar-nos, quase vinte anos depois: até onde estamos dispostos a ir para proteger o futuro de quem vem depois de nós? E por que, para alguns, esse sacrifício parece mais crível quando vem de quem já foi condenado pela sociedade? Essa é a verdadeira lição que fica.

Mark “Chopper” Read.



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