O CACHORRO QUE MIJOU NO HÁBITO DA FREIRA
Domingo. O sol em Moçambique nasce e povo ainda mal despontou, já se ouve o canto distante dos primeiros fiéis nas igrejas de cimento e zinco ou palhas e capim, sacos e papelões, em sombras, alpendres, garagens, galpões, armazéns ou edifícios transformados e construídos como centros de adoração. Há qualquer coisa de sagrado neste dia que nos obriga a parar. Não é só o cansaço da semana. É a necessidade de olhar para dentro, de medir a vida pelo que realmente importa. E, para muitos casais moçambicanos, esse olhar começa – ou deveria começar – juntos, de joelhos, diante de Deus.
Não se trata de um ritual bonito para fotografia. Trata-se de um acto revolucionário. Num país onde as estatísticas falam de famílias desfeitas pela migração, pelo desemprego, pelas tentações que chegam pelo telemóvel às três da madrugada, rezar juntos é erguer uma muralha invisível. É dizer, sem palavras grandes: “Eu e tu, contra o que vier. Não sozinhos. Com Ele.”
Penso nas mães que criam sozinhas porque o pai foi para a África do Sul ou para o Dubai atrás de um salário que nunca chega inteiro. Penso nos jovens casais que vivem em casas de um quarto, com a sogra no outro canto, e que ainda assim encontram cinco minutos ao amanhecer para se darem as mãos e dizerem “Pai Nosso”. Esses minutos não são bonitos. São necessários. São o oxigénio de um amor que, de outra forma, sufocaria.
A oração em casal não é mágica. É trabalho. É humildade. É admitir, em voz alta, que não somos suficientes um para o outro. Que precisamos de mais. Que o amor humano, sozinho, é frágil como caniço no Incomáti quando a cheia chega. Mas quando dois se curvam diante do mesmo Deus, algo muda na química da relação. O ego diminui. O perdão torna-se possível. A paciência ganha raízes mais fundas que o baobá.
Lembro-me de casais que conheci em Nampula e na Beira, gente simples, sem teologia sofisticada, que me contaram o mesmo: “Quando rezamos juntos, até as discussões ficam mais curtas.” Não é poesia. É experiência vivida. A oração obriga-nos a ver o outro não como adversário, mas como companheiro de jornada. Obriga-nos a confessar falhas. Obriga-nos a pedir ajuda para os defeitos que escondemos até de nós mesmos.
E há mais. Num tempo em que o individualismo chega até às aldeias pelo TikTok, rezar juntos é resistência cultural. É afirmar que o “nós” ainda vale mais que o “eu”. É ensinar aos filhos, sem sermão, que a fé não é coisa de domingo na igreja, mas de todos os dias na sala. É criar memória afectiva: o cheiro do incenso, o som da voz do companheiro a dizer “amém”, o silêncio que fica depois. Essas memórias são o que resta quando a beleza física passa, quando o dinheiro aperta, quando a doença bate à porta.
Não nego: há quem zombe. Há quem veja na oração em casal apenas um eufemismo ou uma hipocrisia. Mas o riso fácil não aguenta o peso da vida real. A vida real é o casal que perdeu o emprego e ainda assim se ajoelha. É a mulher que perdoa a traição porque, na oração, encontrou a força que o orgulho lhe negava. É o homem que aprende a chorar diante da esposa porque, diante de Deus, já aprendeu que ser forte não é nunca fraquejar.
Hoje, domingo, faça a experiência. Não precisa de sermão longo. Basta cinco minutos. De mãos dadas. Sem telemóvel. Sem fingimento. Diga o que sente. Peça o que precisa. Agradeça o que têm. E veja o que acontece.
Porque um casal que reza junto não é um casal que nunca falha. É um casal que, quando falha, sabe exactamente para onde olhar para se levantar. E isso, em Moçambique ou em qualquer parte, é o verdadeiro milagre.
Amém.
Ámen
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