2500 CONTACTOS, 5 NÚMEROS E NENHUMA SAUDAÇÃO
A Crónica de um Homem que Descobriu a Solidão numa SMS da Vodacom
Era um sábado de outubro de 2026. O primeiro do mês. A manhã ainda se espreguiçava, e eu, deitado numa beliche, longe do convívio familiar e da agitação da cidade, vi o ecrã acender-se. Dois smartphones, cinco cartões de três operadoras diferentes - dois da Movitel, dois da Vodacom e um da Tmcel - e um silêncio que pesava. O da Tmcel, coitado, continua fora, guardado na gaveta da preguiça, à espera de um celular simples, daqueles antigos que só servem para chamadas e SMS, como os das fotografias que guardo com carinho. Não há maldade nos números que acumulei ao longo dos anos; todos nasceram de circunstâncias distintas, e todos permanecem activos. Mas a verdade é que, numa das minhas contas Google, repousam mais de 2500 contactos. Uma colecção que começou em 2010, quando a associação de contas se tornou fácil, mas cuja história remonta a 2005, ano do meu primeiro número, na estreia da mCel e do inesquecível código 82, embora agora tenha ficado com 83 e já nem me lembro qual número começava com 82 que tanto amava. Troquei vários por dificuldades em recuperá-los, por excesso de burocracias e queda de qualidade dos serviços.
Mas não é sobre a colecção que quero falar. É sobre a mensagem que me despertou às 7h24.
O som e a vibração do aparelho arrancaram-me de um torpor matinal. "Já amanheceu", pensei. Mas não era um bom dia de um amigo, nem uma mensagem da mulher distante, nem um áudio dos filhos. Era a Vodacom. Uma SMS simples, quase burocrática:
"Caro Cliente agora ao digitar o
*005#, pode escolher receber ou nao mensagens da Vodacom sobre promocoes, ofertas especiais e as melhores novidades. Obrigado."
Duas opções. Um julgamento. E uma decisão que, à primeira vista, parece patética, mas que revela o retrato cru de uma geração.
A escolha era entre continuar a receber as notificações diárias ou cancelá-las. A lógica gritava para cancelar. A futilidade dessas mensagens é evidente. Mas eu decidi não cancelar. E o motivo? É aqui que a crónica se desnuda: porque essas notificações são um dos poucos sinais que tenho de que o meu aparelho funciona. Se não fosse por elas, eu só saberia que o telemóvel está vivo quando olhasse as horas, acedesse às redes sociais ou fizesse transferências monetárias. Recebo notificações de salário, descontos de dívidas, cobranças e mais nada. Nunca votos de felicidades, nunca confirmação de presentes, nunca um "como estás?".
Com quase 40 anos, funcionário público, mais de 15 lugares vividos e 20 países visitados, de mãos dadas com 40 cidades entre Moçambique e o estrangeiro - excepto a Oceânia, as Américas, a Antártida e a Indonésia; se não me falha a geografia, como pode um homem estar tão sedento de saudações? Como pode depender das SMS das operadoras para ler mensagens? A minha decisão de não cancelar pareceu-me, num primeiro instante, patética e inusitada. Repreendi-me por pensar: "Como digo sim à operadora, se quando entram essas notificações de publicidades dá para fingir, no meio dos colegas, que os meus celulares funcionam e que tenho uma mensagem por responder ou uma chamada por efectuar?"
Olha, um homem de quase 40 anos, dois filhos, uma mulher distante e agora numa solidão em missão de serviço com mais de 100 colegas juntos, não devia optar por não cancelar as notificações por esse motivo. Tenho irmãos, tios, primos, vizinhos, colegas e mais vínculos construídos ao longo de 15 anos de serviço. Talvez devesse preferir mais paz e espaço, conforto para pensar e organizar a vida, fazer negócios e não apenas amigos, e conhecer pessoas que se dizem "contactos" no verdadeiro sentido - aqueles que te fazem assinar contratos e não se preocupam em optar por continuar a receber notificações das operadoras.
Olhei-me para mim. Vi a tamanha e triste futilidade; o vazio e a improdutividade que represento. Fora da minha esposa e filhos, da minha mãe e irmão que directamente dependem da minha atenção, achei tudo bobo. (risos). Mas, curiosamente, sinto uma paz imensa. Confessar que é um alívio não cancelar as notificações, embora muita coisa não me diga respeito e não seja a minha preferência, é libertador.
Na véspera do 4 de Outubro, data em que Moçambique celebra a Paz e Reconciliação - provavelmente, corrijam-me quem souber melhor, receber esta SMS e reagir nestes moldes é, para mim, um exercício de paz reconciliativa e consoladora. Pelas perdas e falhas do que não soube e nem sei aproveitar diante dos meus olhos e oportunidades que tenho desperdiçado nesta jornada. Agradeço, também, pelas poucas valias que tenho captado no mar de várias possibilidades de mudar o mundo e a vida dos meus dependentes no meio de incertezas que o país oferece em pesadelos. Mas volto a cobrar-me: devia usar o meu tempo, espaço e ambiente para criar parcerias valiosas e não apenas rodear-me de pessoas medíocres que só discutem futilidades.
A Lição de Moral (que fica para a vida)
A tecnologia aproximou-nos de quem está longe, mas afastou-nos de quem está perto. Acumulamos 2500 contactos, mas perdemos a capacidade de cultivar 5 amizades verdadeiras. A crónica desta manhã não é sobre a Vodacom, nem sobre os códigos *098#, mas sobre a coragem de admitir que, por vezes, preferimos o ruído de uma notificação automática ao silêncio ensurdecedor da nossa própria solidão.
Que a paz que hoje sinto não seja apenas uma trégua, mas um ponto de viragem. Que o meu tempo seja investido em quem realmente importa, e que as minhas mensagens - sejam SMS, chamadas ou abraços - não sejam apenas respostas a cobranças, mas pontes para a reconexão humana. Afinal, de que vale ter o mundo na palma da mão se não temos ninguém para partilhá-lo?
Com carinho, de: Lino TEBULO

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