O SUCO QUE NÃO É SUCO
A Fábrica Clandestina Que Nos Deve Fazer Pensar
Contexto:⤵️
O que parecia uma casa comum em Muthua, Kabete, no Quénia, estava a ser usada como uma fábrica clandestina de sucos. Um membro vigilante da comunidade denunciou a operação, e detectives da Delegacia de Polícia de Kabete responderam rapidamente. Na casa, encontraram dois homens, Alex Mwaruta e James Munala Inyangala, no meio da produção de suco falsificado. Ambos foram presos no local.
Uma busca na casa revelou as camadas da operação. Os detetives recuperaram aproximadamente 1.400 garrafas cheias de 200ml e 300ml de suco suspeito de ser falsificado, além de 56 caixas de garrafas vazias, cinco pacotes de tampas de garrafa, dois tambores azuis e três bacias de cores variadas. Também foram recuperados cola de escritório, carimbos de borracha e tinta, adesivos variados, um certificado expirado autorizando o uso da Marca de Padronização para uma conhecida marca de suco, bem como substâncias em pó variadas e incolores embaladas em sacos de polietileno.
A cena foi posteriormente processada por detetives da Investigação de Cena de Crime (CSI), enquanto os itens recuperados foram preservados como evidências. Os dois suspeitos permanecem detidos enquanto as investigações continuam.
A Diretoria de Investigações Criminais (DCI) do Quénia alertou que bebidas falsificadas produzidas em ambientes não regulamentados e anti-higiénicos podem expor consumidores desavisados a sérios riscos à saúde. Tais operações ilegais também prejudicam fabricantes legítimos e privam o governo de receitas tributárias devidas.
Reflexão
Este caso no Quénia não é uma anomalia distante. É um espelho que reflete uma realidade que Moçambique conhece demasiado bem.
Em Moçambique, a Inspeção Nacional das Atividades Económicas (INAE) reconheceu publicamente que cerca de 80% das marcas populares de bebidas alcoólicas que circulam no país são contrafeitas e vendidas a preços significativamente mais baixos do que as bebidas originais. O problema não se limita ao álcool. Uma fábrica de sumos na Beira foi encerrada pela INAE por produzir sumos com corantes e adoçantes expirados, incluindo sulfato de magnésio e aromas de uva, ananás e manga, configurando o que a própria inspetora-geral classificou como "um atentado, um crime contra a saúde pública".
O padrão é claro: onde há procura por preços baixos, há quem esteja disposto a lucrar com a saúde alheia.
O que o caso de Kabete revela com particular clareza é a banalidade da operação. Não estamos a falar de laboratórios sofisticados em zonas industriais remotas. Estamos a falar de uma casa comum, num bairro residencial, com dois tambores azuis, três bacias, cola de escritório e uma máquina de carimbos. A falsificação de bebidas tornou-se acessível, descentralizada e quase caseira. Qualquer espaço com quatro paredes pode tornar-se numa fábrica de veneno engarrafado.
O certificado expirado de uma marca conhecida de suco é talvez o detalhe mais perturbador. Não se trata apenas de produzir uma bebida desconhecida. Trata-se de usurpar a confiança de uma marca que os consumidores já conhecem e confiam. O consumidor não compra "suco desconhecido". Compra a marca que reconhece, sem saber que está a beber uma mistura de pós incolores, água não tratada e corantes de origem duvidosa, engarrafada numa cozinha onde se cozinha arroz no dia seguinte.
E depois há o silêncio.
Em Moçambique, a INAE admite que não tem formação nem equipamento para realizar testes laboratoriais que verifiquem a autenticidade das bebidas. A própria diretora da instituição reconheceu que a corrupção dentro da INAE tem dificultado os esforços de combate ao produto contrafeito, com inspetores a favorecerem determinadas fiscalizações em troca de dinheiro. Quando o regulador é parte do problema, o consumidor fica sozinho.
A verdade é desconfortável: o mercado de bebidas falsificadas não é um problema de fiscalização. É um problema de governação.
O caso de Kabete terminou com dois homens detidos e 1.400 garrafas apreendidas. Mas quantas casas comuns em Moçambique continuam a produzir "sucos" que nunca viram uma fruta? Quantas garrafas de 200ml e 300ml estão neste momento a caminho de mercados informais, barracas de esquina e vendedores ambulantes, prontas para serem compradas por mães que querem dar algo doce aos filhos?
A DCI do Quénia apelou à denúncia anónima através do número gratuito 0800 722 203 e do WhatsApp 0709 570 000. Em Moçambique, a INAE tem as suas próprias linhas de denúncia. Mas de que serve denunciar se a instituição que recebe a denúncia é a mesma que, por palavras da sua própria liderança, tem "muitos vigaristas" nas suas fileiras?
A solução não é apenas mais fiscalização. É fiscalização com integridade. É laboratórios com capacidade. É penas que dissuadam. É consumidores informados que saibam que um preço demasiado baixo para ser verdade é, quase sempre, uma mentira que se bebe.
O adolescente de 14 anos que morreu na Matola depois de beber "xivotxongo" não sabia que estava a beber uma mistura clandestina. Os consumidores de sucos falsificados em Kabete também não sabiam. A diferença entre Moçambique e o Quénia não é a existência do problema. É a capacidade (ou a vontade) de o enfrentar.
E enquanto não enfrentarmos, continuaremos a beber o que não é nosso, feito por quem não nos conhece, em lugares que nunca deveriam ser cozinhas.
Denuncie. Exija transparência. Não beba o que não conhece.

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