O PREÇOS DA JUSTIÇA TRADICIONAL
Quando a Disputa Pela Terra Exige o Sacrifício da Própria Vida
Facto:
Dois agricultores filipinos, com 69 e 49 anos, morreram no passado dia 16 de outubro após participarem num ritual tradicional denominado “Sulif”, no rio Glamang, na localidade de Datal Anggas, província de Sarangani, no sul das Filipinas. A informação foi avançada pelas autoridades locais e por órgãos de comunicação social filipinos.
Segundo os relatos, os dois homens tinham uma disputa sobre a posse de um terreno e, depois de falharem as tentativas de resolução junto das autoridades locais, decidiram submeter-se voluntariamente ao ritual para determinar quem tinha razão. O “Sulif” é uma prática tradicional de algumas comunidades indígenas do sul de Mindanao que consiste num desafio subaquático de alto risco: os participantes submergem e aquele que conseguir permanecer mais tempo debaixo de água é considerado o vencedor, com o resultado a ser interpretado como um veredicto.
Os dois homens permaneceram submersos durante cerca de 12 minutos sem voltar à superfície. Os presentes acabaram por retirá-los da água e transportá-los para unidades hospitalares, mas Tonny Bulanon Mansag chegou já sem vida ao hospital provincial, enquanto Gaspar Tusan Palasanon viria a falecer horas mais tarde. As autoridades abriram uma investigação para esclarecer as circunstâncias exactas das mortes.
O que este caso nos diz sobre nós
Há histórias que nos chegam como notícias e que, ao serem lidas com atenção, se transformam em espelhos. O caso do “Sulif” é um desses espelhos. Não pelo exotismo que alguns poderão querer ver na tradição, mas porque revela algo de profundamente humano e perturbador: a facilidade com que a vida humana pode ser colocada na balança e considerada um preço aceitável para resolver uma disputa.
À primeira vista, poderíamos cair na tentação de classificar este ritual como “primitivo” ou “irracional”. Seria um erro. Não porque o acto em si não seja trágico e evitável — é-o, sem dúvida —, mas porque a linha que separa a racionalidade da irracionalidade é muito mais ténue do que gostamos de admitir. Quantas decisões tomamos, individual e colectivamente, que também sacrificam vidas — ou a qualidade delas — em nome de princípios abstractos, de tradições herdadas ou de disputas que, vistas de fora, parecem tão arbitrárias como a posse de um pedaço de terra?
A terra, aliás, é o epicentro desta tragédia. Em sociedades onde o acesso à terra é sinónimo de sobrevivência, de identidade e de dignidade, a disputa por um lote não é uma questão menor. É a própria vida que está em jogo. O problema é que, quando a vida já está em jogo, recorrer a um mecanismo que a coloca ainda mais em risco revela um nível de desespero — ou de captura cultural — que deveria interpelar-nos a todos.
Há um detalhe particularmente inquietante nos relatos que circularam: a alegação de que os dois homens terão pedido ajuda debaixo de água e que os responsáveis pelo ritual os terão impedido de levantar a cabeça, sob o argumento de que cada um representava não apenas a si próprio, mas toda a sua família alargada. Independentemente da verificação destes relatos, a própria existência desta narrativa diz muito. Diz que, em nome da honra familiar, da tradição ou de uma qualquer ordem superior, o sofrimento individual pode ser silenciado. E isso não é exclusivo das Filipinas, nem das comunidades indígenas, nem de rituais antigos.
A pergunta que fica não é se o “Sulif” deve ser proibido — essa é uma decisão que cabe às comunidades e às autoridades filipinas, no respeito pela sua soberania e pelo seu contexto cultural. A pergunta que fica é outra, mais incómoda: até que ponto estamos dispostos a questionar as tradições — todas as tradições, incluindo as que nos são mais próximas — quando elas deixam de servir as pessoas e passam a exigir-lhes a vida?
Porque a tradição, quando é viva, adapta-se, protege, une. Quando se petrifica, mata. E o que morreu no rio Glamang não foram apenas dois homens. Morreu, também, a possibilidade de acreditarmos que uma disputa por terra pode terminar sem que alguém tenha de perder tudo.
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| Dois agricultores nas Filipinas morreram num ritual underwater para resolver uma disputa de terras. |

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