MOSCOVO RECEBE O GÁS MOÇAMBICANO, MAS QUEM AQUECE O FOGÃO EM CASA?
Ecos da VIIIª Cimeira do Fórum dos Países Exportadores de Gás
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| Presidente Chapo em Moscovo defende gás para o povo na Cimeira Rússia-África e Fórum do Gás. |
O Presidente da República, Daniel Chapo, encontra-se em Moscovo a convite do Presidente russo Vladimir Putin para participar na 3.ª Cimeira Rússia–África, que se realiza nos dias 28 e 29 de Outubro de 2026. À margem desta agenda, o Chefe de Estado intervém na 8.ª Cimeira do Fórum dos Países Exportadores de Gás, onde defende que os recursos energéticos devem gerar desenvolvimento para os povos e reforçar a cooperação entre as nações. A presença moçambicana sublinha a importância atribuída ao diálogo e às relações com a Federação da Rússia e com o continente africano.
Há algo de profundamente simbólico nesta deslocação. Um país que ainda luta para levar electricidade estável a grande parte das suas comunidades, que vê o gás da Bacia do Rovuma como promessa de transformação e que carrega o peso de expectativas acumuladas ao longo de décadas, apresenta-se agora nos salões de Moscovo a falar de soberania energética e de cooperação. A mensagem é clara e correcta: nenhum povo deve ser meros exportadores de riqueza em bruto enquanto continua a importar pobreza. Os recursos devem servir primeiro quem os possui. Esta defesa ressoa com uma verdade antiga e africana — a terra e o que dela sai pertencem àqueles que nela nascem, trabalham e sonham.
Porém, a reflexão impõe-se com a mesma força com que o gás natural se extrai do solo. Quantas vezes já ouvimos esta linguagem de “desenvolvimento para os nossos povos”? Quantas cimeiras, quantos memorandos e quantas fotografias de família diplomática se traduziram, de facto, em hospitais com geradores fiáveis, em indústrias locais que processam o que exportamos e em empregos dignos que permitem a um jovem de Cabo Delgado ou de Inhambane construir casa e família sem depender de remessas ou de sonhos emigratórios? A cooperação internacional é necessária. A multipolaridade pode abrir caminhos que a dependência exclusiva de um único bloco nunca permitiria. A Rússia, com a sua experiência energética e a sua postura de parceria menos condicionada por certas exigências ocidentais, representa uma opção legítima num mundo que se reorganiza. Mas a história ensina que a presença em fóruns de alto nível não substitui a capacidade de negociar com clareza o que fica em casa.
O verdadeiro desafio não reside apenas em estar à mesa. Reside em garantir que o gás que sai do nosso subsolo não se limite a alimentar mercados distantes enquanto as famílias moçambicanas continuam a cozinhar com lenha ou a pagar tarifas que pesam no orçamento mensal. Reside em transformar a riqueza natural em conhecimento técnico, em formação de quadros nacionais e em cadeias de valor que comecem e terminem no território moçambicano. Reside, ainda, em exigir que a cooperação seja efectiva e mensurável: transferência real de tecnologia, investimentos que industrializem e não apenas extraiam, e uma governação transparente que impeça que os dividendos desapareçam nos mesmos circuitos de sempre.
Há quem olhe para estas deslocações com cepticismo, questionando se a língua oficial ou outras heranças coloniais não nos atrasam no diálogo global. Há quem se fixe na estatura física do Presidente ou na forma como o mundo exterior nos observa. Esses olhares, por vezes superficiais, revelam uma inquietação mais profunda: o desejo de que Moçambique deixe de ser apenas objecto de interesse e passe a ser sujeito activo da sua própria história. A diplomacia do gás e das cimeiras pode ser instrumento de soberania ou apenas mais um capítulo de uma narrativa já conhecida. A diferença far-se-á não pelo número de discursos proferidos em Moscovo, mas pela capacidade de converter essas palavras em calor nos lares, em luz nas escolas e em dignidade nos rostos daqueles que, longe dos salões oficiais, esperam que o “vamos trabalhar” deixe de ser slogan e se torne realidade quotidiana.
O mundo multipolar oferece oportunidades. A responsabilidade de não as desperdiçar continua a ser inteiramente nossa. Os recursos são moçambicanos. O desenvolvimento também deve ser.
#Cimeira Rússia-África, #GásnaturalMoçambique, #DanielChapo, #Soberaniaenergética
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