FELIZ DIA 12 DE OUTUBRO – DIA DOS PROFESSORES EM MOÇAMBIQUE
Que os Professores de Hoje Transformem a Escola em Quartéis para Libertar o Povo do Sofrimento
Celebra-se hoje, 12 de Outubro, o Dia dos Professores em Moçambique. A data, instituída para homenagear a classe docente, é assinalada em todo o território nacional com cerimónias oficiais, deposição de coroas de flores e mensagens de reconhecimento ao papel dos educadores na formação do homem e da sociedade moçambicana.
Na sua mensagem alusiva à efeméride, o Presidente da República, Daniel Chapo, felicitou a classe e destacou o "papel nobre e insubstituível" dos professores, sublinhando que ser professor é mais do que exercer uma profissão - é uma vocação que exige entrega, paciência e amor pelo saber. O Chefe de Estado reconheceu, ainda, os desafios enfrentados pelo sector, apelando à necessidade de melhorar continuamente as condições de trabalho e o ambiente escolar para que os docentes exerçam a sua profissão com dignidade.
Contudo, a realidade nas escolas moçambicanas continua marcada por constrangimentos profundos: falta do livro escolar, turmas superlotadas, dívidas de horas extras e baixos salários que se juntam às más condições de trabalho e a vida social dessa classe. Dados recentes revelam que o rácio professor-aluno no ensino primário se situa actualmente em 68,1 alunos por professor, com as províncias de Nampula, Cabo Delgado e Zambézia a registarem os cenários mais críticos - 87, 85 e 78 alunos por docente, respectivamente. O Governo prevê admitir mais de 58 mil professores até 2029 para reduzir este rácio para 55 alunos por professor, mas o caminho é longo e os recursos limitados.
Um estudo recente conduzido nas províncias de Nampula revelou que menos de 2% dos alunos da segunda classe e menos de 6% dos alunos da terceira classe atingem os níveis mínimos de proficiência em leitura, evidenciando uma crise de aprendizagem que compromete o futuro de milhões de crianças moçambicanas.
A Reflexão: Da Escola- Quartel à Libertação do Povo
O Espírito de 1975 Ainda Vive?
Quando Samora Moisés Machel, primeiro Presidente da República Popular de Moçambique, proclamou a palavra de ordem "Fazer da escola uma base para o povo tomar o poder", não estava a fazer uma declaração retórica de circunstância. Estava a lançar as bases de um projecto de nação que via na educação o instrumento mais poderoso de libertação humana.
Essa visão não era ingénua. Samora compreendia que a independência política conquistada em 1975 seria letra morta se não fosse acompanhada de uma independência mental e cultural. O povo moçambicano precisava de aprender a ler não apenas as palavras, mas a realidade; precisava de dominar a ciência e a técnica não apenas para competir, mas para transformar as condições materiais da sua existência.
É aqui que a metáfora do quartel se revela profundamente subversiva e necessária. Não um quartel de opressão, de hierarquia castradora ou de obediência cega. Mas um quartel no sentido que Samora lhe dava: um espaço de disciplina consciente, de preparação metódica, de organização colectiva para a conquista de objectivos comuns. Um quartel onde se formam soldados da paz, não da guerra; onde se aprende a combater a ignorância, a pobreza e a resignação, não o próximo.
A Escola Como Trincheira Contra o Sofrimento
O sofrimento do povo moçambicano tem muitos nomes: é a pobreza que persiste apesar de décadas de crescimento económico; é a corrupção que desvia recursos que deveriam chegar às salas de aula; é a desigualdade que transforma o acesso à educação num privilégio de poucos; é a violência que assola as comunidades; é a falta de oportunidades que empurra os jovens para a marginalidade ou para a emigração desesperada.
Cada um destes sofrimentos tem raízes na ausência de uma consciência crítica generalizada. Um povo que não sabe ler as causas estruturais da sua condição está condenado a sofrer passivamente. Um povo que não domina as ferramentas do conhecimento está condenado a ser objecto das decisões de outros, nunca sujeito da sua própria história.
Paulo Freire, que dialogou profundamente com a experiência moçambicana de educação popular, compreendeu que a educação verdadeiramente libertadora não é aquela que "deposita" conhecimento nos educandos como se estes fossem recipientes vazios. É aquela que desperta a consciência, que problematiza a realidade, que convida ao diálogo e que capacita para a acção transformadora.
Fazer da escola um quartel, neste sentido, é fazer dela um espaço onde se aprende a pensar, não apenas a memorizar; onde se aprende a questionar, não apenas a obedecer; onde se aprende a organizar-se colectivamente, não apenas a competir individualmente.
Os Professores Como Oficiais da Libertação
Mas aqui reside o paradoxo doloroso do presente. Os professores moçambicanos, a quem se pede que sejam os oficiais desta revolução educacional, são os mesmos que há décadas esperam por condições dignas de trabalho. São os mesmos que enfrentam turmas de mais de 80 alunos, que trabalham sem livros escolares, que acumulam horas extras nunca pagas, que veem os seus salários corroídos pela inflação e pelas injustiças da Tabela Salarial Única.
Como pode um professor transformar a escola num quartel de libertação quando o próprio Estado o trata como soldado raso de uma guerra que não lhe reconhece o valor?
Esta é a pergunta que ecoa neste 12 de Outubro. A celebração do Dia dos Professores não pode ser um ritual vazio de discursos elogiosos e coroas de flores. Tem de ser um momento de verdade, de exigência e de compromisso recíproco.
Se o Estado quer que os professores sejam os agentes da libertação do povo, tem de lhes dar as armas necessárias: salários dignos, formação contínua de qualidade, materiais didácticos adequados, infraestruturas condignas, respeito profissional e liberdade para ensinar a pensar. Sem estas condições, o discurso da "escola como base para o povo tomar o poder" permanece uma bela frase empoeirada nos arquivos da história.
A Consciência Como Arma
Mas não basta exigir do Estado. Os professores, mesmo nas condições mais adversas, têm uma responsabilidade que não pode ser delegada: despertar consciências.
Cada sala de aula é um microcosmo da sociedade moçambicana. Cada criança que entra numa escola traz consigo não apenas o desejo de aprender, mas também as marcas do sofrimento da sua comunidade. O professor que ensina apenas a ler e a contar sem ajudar o aluno a compreender por que a sua família é pobre, por que a sua comunidade não tem água potável, por que o seu país não consegue transformar a sua riqueza natural em bem-estar para todos - esse professor está a desperdiçar a oportunidade mais preciosa que tem nas mãos.
Ensinar a ler é ensinar a ler o mundo.
Ensinar a contar é ensinar a contabilizar as injustiças e a exigir a sua correcção.
Ensinar ciências é ensinar a compreender as leis naturais e sociais para melhor as transformar.
Ensinar história é ensinar a conhecer as raízes da opressão para melhor a combater.
Este é o sentido profundo da escola-quartel: um espaço onde a ignorância é o inimigo a derrotar e onde cada aluno se torna um soldado da consciência crítica.
O Papel da Sociedade
Nenhuma transformação educacional é possível sem o envolvimento de toda a sociedade. As famílias, as comunidades, as organizações da sociedade civil, os meios de comunicação e as igrejas têm um papel insubstituível na valorização da escola e do professor.
Uma sociedade que não respeita os seus professores é uma sociedade que não respeita o seu próprio futuro. Uma comunidade que não acompanha a educação dos seus filhos está a hipotecar as suas próximas gerações. Um país que não investe na educação está a condenar-se à dependência eterna.
Conclusão: O Desafio de Transformar
Neste 12 de Outubro, o desafio que se coloca aos professores moçambicanos é imenso, mas não é impossível. É o desafio de transformar a escola num quartel - não de obediência cega, mas de disciplina consciente; não de preparação para a guerra, mas de preparação para a paz; não de reprodução das desigualdades, mas de construção de uma sociedade mais justa.
É o desafio de libertar o povo do sofrimento não através de ilusões ou promessas, mas através da única arma verdadeiramente revolucionária: a consciência crítica.
Que este Dia dos Professores seja mais do que uma data no calendário. Que seja o início de uma nova ofensiva (pacífica, determinada, colectiva) contra a ignorância, a resignação e a injustiça.
Porque um povo que pensa é um povo que não se deixa enganar. Um povo que sabe é um povo que pode. E um povo que pode é um povo que deixa de sofrer.
Feliz Dia dos Professores, Moçambique. Que a escola seja, verdadeiramente, a base para o povo tomar o poder sobre o seu próprio destino.

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