O REI QUE CASA COM A POLÍTICA E A FÉ

Mswati III Prepara a 17.ª Esposa e Redesenha o Mapa do Poder na África Austral

O Rei Mswati III deve se casar com Nontokozo Shembe, filha do líder da Igreja Batista de Nazaré, conhecida como Unyazi LweZulu. Isso ocorre logo após o Rei ter se casado com Nomcebo Zuma, filha do ex-presidente sul-africano Jacob Zuma.

O Rei Mswati III, monarca absoluto de Eswatini desde 1986, prepara-se para receber mais uma esposa. Fontes próximas à realeza e documentos de viagem confirmam que Nontokozo Shembe, filha do líder da Igreja Batista de Nazaré (conhecida como Igreja Shembe ou Unyazi LweZulu), frequentou o palácio real durante a recente cerimónia do Umhlanga (Dança dos Caniços), em agosto e setembro de 2026. O lobolo já terá sido pago. O porta-voz do rei, Percy Simelane, limitou-se a classificar o assunto como “um assunto de família”.

Este anúncio chega pouco depois do casamento, em 2024, com Nomcebo Zuma, filha do antigo presidente sul-africano Jacob Zuma. Mswati, que já conta com cerca de quinze ou dezasseis esposas, torna-se assim, se a união se concretizar, marido de uma filha de um dos políticos mais influentes da África do Sul e, agora, da filha de um dos líderes religiosos mais poderosos entre os zulus.

A notícia, em si, parece apenas mais um capítulo da longa tradição poligâmica da realeza suazi. Mas olhar para ela apenas como tradição é simplificar demais.  

Há, neste casamento, uma geometria de poder que merece ser observada com atenção.

Primeiro, a dimensão política. Jacob Zuma continua a ser uma figura central na política sul-africana. A Igreja Shembe, por sua vez, concentra milhões de fiéis, sobretudo em KwaZulu-Natal, e funciona como uma das maiores forças sociais e religiosas da região. Ao ligar-se a ambas as famílias, o rei de Eswatini não está apenas a aumentar o número de esposas. Está a tecer uma rede de influência que atravessa fronteiras, religiões e partidos. Num país pequeno e economicamente dependente, estas alianças não são meros gestos de cortesia. São instrumentos de sobrevivência e de projecção.  

Depois, a dimensão cultural. A poligamia real em Eswatini não é um excesso individual. É uma instituição. O rei herda não só o trono, mas a obrigação de perpetuar uma forma de realeza que se constrói através de múltiplas uniões. Cada esposa representa uma casa, uma linhagem, uma nova rede de lealdades. No entanto, no século XXI, esta prática choca frontalmente com as narrativas de igualdade de género, direitos das mulheres e modernidade democrática. A tensão não é apenas moral. É existencial. Como pode um monarca absoluto, que governa por decreto, continuar a legitimar-se através de práticas que grande parte do mundo considera anacrónicas, enquanto o seu povo enfrenta pobreza, desemprego e restrições de liberdades?  

Há ainda a dimensão humana. Nontokozo Shembe e Nomcebo Zuma são mulheres jovens introduzidas num sistema em que a individualidade tende a dissolver-se no papel de inkhosikati ou liphovela. O que significa, para uma jovem, tornar-se a décima sexta ou décima sétima esposa de um homem que já tem dezenas de filhos? Onde termina o consentimento e começa a pressão da família, da religião e do prestígio? Estas perguntas raramente encontram espaço nos comunicados oficiais, mas habitam o silêncio que rodeia cada novo casamento real.  

Por fim, a dimensão simbólica. Mswati III é o último monarca absoluto de África. O seu reinado é, ao mesmo tempo, um resquício de um passado pré-colonial e um desafio permanente às normas contemporâneas de governação. Cada novo casamento funciona como um ritual de afirmação: o rei continua a ser o centro do universo suazi, capaz de atrair filhas de líderes políticos e religiosos para o seu círculo. Mas também funciona como um espelho. Reflecte a dificuldade que muitas sociedades africanas ainda enfrentam em conciliar tradição e transformação, autoridade e responsabilidade, sacralidade e transparência. 

Não se trata de condenar ou celebrar. Trata-se de compreender. Estes casamentos não são apenas histórias de romance ou de excesso. São textos políticos escritos em linguagem cultural. Revelam como o poder se move, como as alianças se constroem e como as mulheres continuam, muitas vezes, a ser o elo mais visível e, paradoxalmente, o mais silencioso dessas redes.  

Enquanto o rei prepara a introdução formal de Nontokozo Shembe à nação, a pergunta que permanece não é quantas esposas ele terá. É que tipo de futuro se está a desenhar quando a realeza, a política e a religião se entrelaçam desta forma. Em Eswatini e para além dela.

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