O FIM DE UMA ERA: A EROSÃO DE UM IMPÉRIO ANUNCIADA PELA GEOGRAFIA
Desta Vez em 173 Anos, Não Há Navios de Guerra Americanos no Golfo Pérsico
Teerão, 29 de Setembro de 2026 - O porta-voz da Guarda Revolucionária Iraniana, Brigadeiro-General Hossein Mohebbi, confirmou numa terça-feira, por sinal a última de Setembro do ano corrente, que não existe um único navio de guerra americano no Golfo Pérsico, nem no Golfo de Omã, nem no norte do Oceano Índico. Segundo a agência Tasnim, os navios de guerra dos EUA recuaram pelo menos 500 quilómetros da entrada do Estreito de Ormuz e das águas do Golfo.
Antes da guerra iniciada em Fevereiro de 2026, a Marinha dos Estados Unidos mantinha entre 30 a 40 navios de guerra na região. Hoje, nem a Quinta Frota - sediada no Bahrein e com jurisdição operacional sobre o Golfo Pérsico - possui uma única embarcação ou pequeno barco nas águas do Golfo.
Mohebbi descreveu a situação com uma franqueza cortante: os EUA estão a tentar "retratar uma derrota clara como vitória". E acrescentou que Washington "será em breve forçado a retirar-se também do Mar da Arábia", alegando que os porta-aviões Abraham Lincoln e Gerald Ford, juntamente com outros navios, foram submetidos a um desgaste que "reduziu a resistência das forças americanas ao mínimo".
Segundo relatos da imprensa americana, pelo menos 228 instalações em 15 bases militares dos EUA no Médio Oriente foram danificadas durante o conflito. A base da Quinta Frota no Bahrein sofreu danos severos, e o seu comando foi transferido para a Base Aérea de MacDill, na Flórida. Os custos de reparação poderão atingir 5 mil milhões de dólares.
A retirada coincide com a conclusão da saída total das tropas americanas do Iraque, encerrando 23 anos de presença militar no país. Facções alinhadas com o Irão celebraram o que descreveram como "uma vitória histórica para a resistência islâmica iraquiana e uma derrota esmagadora para o projecto americano".
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| Pela primeira vez desde 1853, os EUA retiraram todos os seus navios de guerra do Golfo Pérsico. |
Uma Reflexão Surge Então: O Que Significa Este Momento?
A Erosão de um Império Anunciada pela Geografia
Há algo de profundamente simbólico no facto de este momento ser marcado pela ausência - pelo vazio deixado por navios que durante quase dois séculos projectaram poder sobre as águas mais estratégicas do planeta.
Desde 1853, quando a Marinha britânica patrulhava o Golfo, passando pelo momento áureo da Pax Americana após a libertação do Kuwait em 1991, o Golfo Pérsico foi o palco onde o Ocidente inscreveu a sua hegemonia. A Quinta Frota, sediada no Bahrein desde 1995, era o símbolo máximo dessa presença: uma força permanente, visível, inquestionável.
Hoje, esse símbolo desvaneceu-se. E não foi por escolha estratégica ou por uma retirada negociada com dignidade. Foi por necessidade. Foi porque a guerra assimétrica iraniana - com os seus mísseis de precisão de longo alcance e enxames de drones - transformou as bases avançadas americanas de activos estratégicos em alvos vulneráveis. O modelo de "deployment avançado", que serviu para derrubar Saddam Hussein e os Talibã, revelou-se obsoleto face a um adversário que aprendeu a explorar a geografia como arma.
A Lição Que Moçambique e África Devem Aprender
Há uma tentação confortável em olhar para este desenvolvimento como um assunto distante - um jogo de xadrez entre potências que pouco nos diz respeito. Mas seria um erro crasso.
Pensemos, por um momento, no que significa para o nosso continente quando a maior potência militar da história é forçada a recuar de uma região inteira por um país que, durante décadas, foi alvo de sanções, sabotagem e isolamento. Significa que o poder global está a fragmentar-se. Significa que a unipolaridade que definiu a ordem internacional desde 1991 está a chegar ao fim. E significa que os países africanos - Moçambique incluído - precisam de reavaliar as suas alianças e estratégias de segurança com uma seriedade que raramente demonstrámos.
Durante décadas, o nosso continente foi tratado como um tabuleiro secundário, um lugar onde as potências jogavam as suas rivalidades por procuração. Hoje, essa lógica está a desmoronar-se. A China observa com interesse crescente a erosão da primazia americana no Golfo, e analistas já antecipam que Pequim procurará expandir a sua influência numa região que se torna cada vez mais contestada.
Para Moçambique, isso significa duas coisas. Primeiro, que a nossa dependência histórica de parceiros ocidentais (para segurança marítima, para investimento, para comércio) precisa de ser diversificada com uma urgência que não tínhamos há cinco anos. Segundo, que a nossa posição geográfica no Índico, que sempre foi vista como periférica, pode tornar-se, paradoxalmente, central neste novo xadrez. O Canal de Moçambique, as nossas águas ricas em gás natural, a nossa proximidade com as rotas marítimas que ligam o Golfo à Ásia - tudo isso adquire novo peso num mundo onde o controlo dos oceanos já não é monopólio de uma única potência.
A Verdade Sobre o Poder
A história ensina-nos que os impérios não caem de um dia para o outro. Caem lentamente, num processo de erosão que começa sempre no mesmo lugar: na perda da capacidade de impor a sua vontade. O momento em que uma potência deixa de conseguir manter os seus navios onde antes os mantinha sem contestação é o momento em que a sua hegemonia deixa de ser um facto e passa a ser uma memória.
O que estamos a testemunhar no Golfo Pérsico não é apenas uma retirada táctica. É a confirmação de uma nova realidade estratégica: a de que a superioridade militar convencional, por si só, já não garante o controlo de territórios e rotas. A guerra assimétrica, a geografia, a resiliência de um povo - tudo isso pode compensar o que falta em porta-aviões e orçamentos de defesa.
E há uma ironia amarga nesta história. Durante décadas, o Ocidente disse ao mundo que a segurança do Golfo (por extensão, a segurança energética global), dependia da presença permanente da Marinha americana. Hoje, essa presença desapareceu. E o mundo não acabou. O petróleo continua a fluir (ou continuaria, se não fosse o bloqueio iraniano) e a vida segue.
Talvez seja essa a lição mais profunda: o medo que nos foi vendido durante décadas era, ele próprio, uma ferramenta de controlo. E agora que essa ferramenta se quebrou, resta-nos enfrentar a pergunta incómoda: o que faremos com a liberdade que sobra?
Um Mundo Sem Árbitros
O recuo americano do Golfo não é um evento isolado. É parte de um padrão maior: a retirada do Afeganistão, a saída do Iraque, a redução da presença em bases por todo o Médio Oriente. Os Estados Unidos estão a aprender - da forma mais dolorosa - que não podem estar em todo o lado ao mesmo tempo. E que o custo de tentar fazê-lo se tornou insustentável.
Para o mundo em desenvolvimento, isto é simultaneamente uma oportunidade e um aviso. A oportunidade está na possibilidade de construir relações internacionais baseadas em interesses mútuos e não em hierarquias impostas. O aviso está na certeza de que a ausência de um árbitro não significa a ausência de conflito - significa apenas que os conflitos passam a ser resolvidos por quem tem mais força local, e não por quem tem mais poder global.
Moçambique, que conhece bem o custo da instabilidade (do terrorismo em Cabo Delgado às cicatrices da guerra civil) não pode dar-se ao luxo de ignorar esta lição. O mundo que se desenha é mais multipolar, mais imprevisível e, paradoxalmente, mais local. As alianças que fazemos, os parceiros que escolhemos, as prioridades que definimos - tudo isso terá consequências que se medirão não em décadas, mas em anos.
O vazio deixado pelos navios americanos no Golfo Pérsico é, no fundo, um espelho. Nele vemos reflectida a nossa própria vulnerabilidade. E, se tivermos coragem para olhar, talvez vejamos também a nossa oportunidade.
Por: Lino TEBULO.
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