LÁGRIMAS NO SOLO VERMELHO
O Grito de um Pastor Africano que Ajoelha sobre a Sepultura dos Seus e Pede Socorro ao Mundo
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| Pastor nigeriano chora sobre sepultura colectiva dos fiéis e clama por paz, protecção e intervenção divina para a Nigéria. |
No Médio Cinturão da Nigéria, mais concretamente no estado de Plateau, o Reverendo Ezekiel Dachomo, líder regional da Church of Christ in Nations (COCIN) em Barkin Ladi, ajoelhou-se e chorou diante de uma sepultura colectiva onde jazem membros da sua própria igreja, mortos em ataques recentes. Em oração intensa, o clérigo pediu a Deus que visite o Presidente Donald Trump para que aumente a presença de forças de segurança no Médio Cinturão, que mova Benjamin Netanyahu a intervir em favor da Nigéria, que proteja Israel dos seus inimigos e que abençoe os Estados Unidos e Israel para se unirem na salvação do povo nigeriano. “Quero que a paz reine neste país. Combatei a batalha que nós não conseguimos combater”, declarou, com a voz embargada pela dor.
Este momento ocorre no contexto de uma violência persistente que tem vitimado comunidades cristãs no Médio Cinturão – Plateau, Benue, partes de Kaduna e Adamawa – onde ataques atribuídos a milícias armadas, muitas vezes descritas como extremistas fulani ou grupos jihadistas, resultam em massacres, deslocamentos forçados e sepulturas colectivas. O próprio Dachomo já conduziu dezenas de enterros em massa ao longo dos anos, perdeu familiares próximos e tem denunciado o que classifica como um genocídio silencioso contra cristãos. Relatórios de organizações de direitos humanos e grupos de monitorização apontam milhares de mortes e raptos de cristãos apenas nos primeiros meses de 2026, com igrejas destruídas e aldeias inteiras abandonadas.
Agora, a reflexão começa onde a dor se torna oração e a oração se torna grito de um continente.
Há algo profundamente africano neste homem de joelhos sobre a terra vermelha que engoliu os seus. Não é apenas um pastor a enterrar fiéis. É um filho deste solo a testemunhar, mais uma vez, que a África continua a ser o continente onde a fé se paga com sangue e onde o silêncio internacional pesa tanto quanto as balas. Quando um líder espiritual se ajoelha sobre a sepultura dos seus e clama por ajuda externa – de Washington e de Jerusalém – não está a trair a soberania africana. Está a reconhecer, com honestidade brutal, que as batalhas que travamos sozinhos há décadas estão a vencer-nos.
A perseguição não é abstracta. É o pai e os três filhos mortos numa aldeia. É a avó cujo coração foi arrancado. É a criança de dois meses que não teve tempo de aprender o nome de Jesus. É o pastor que enterra os seus e depois recebe ameaças de morte por ter ousado contar a história. Quando dizemos “genocídio”, não o fazemos por gosto de palavras fortes. Fazemo-lo porque a repetição sistemática de massacres, o despovoamento de aldeias cristãs, a destruição de igrejas e a impunidade que se segue têm o sabor amargo de uma limpeza planeada. Negar isto é insultar os mortos e abandonar os vivos.
Como africano devoto, sinto esta dor como minha. Porque a mesma lógica que permite que cristãos sejam massacrados no Plateau é a que permite que muçulmanos moderados sejam mortos no Noroeste, que agricultores sejam expulsos das suas terras e que o Estado falhe, repetidamente, em proteger os mais vulneráveis. A solidariedade africana não pode ser selectiva. Se choramos pelos nossos irmãos e irmãs de fé no Médio Cinturão, devemos chorar também por todos os que caem sob a mesma violência. A paz verdadeira só chega quando deixamos de escolher quais vidas merecem luto.
A oração de Dachomo incomoda porque expõe a nossa impotência. Pedir “soldados de pé” e a intervenção de líderes estrangeiros dói no orgulho continental. Mas dói mais ainda o silêncio das nossas próprias elites. Quantas vezes já vimos governos africanos priorizarem discursos diplomáticos sobre a Palestina enquanto as suas próprias comunidades cristãs (e não só) sangram em silêncio? Quantas vezes a soberania foi invocada para proteger a impunidade e não as vidas? O pastor não está a pedir colonialismo. Está a pedir o que qualquer ser humano pede quando o seu povo está a ser dizimado: que alguém, em algum lugar, lute a batalha que ele já não consegue lutar sozinho.
A fé, neste contexto, não é fuga. É resistência. Ajoelhar-se sobre a sepultura e ainda assim rezar pela paz do país inteiro – incluindo daqueles que talvez o odeiem – é um acto de grandeza espiritual que poucos de nós conseguiríamos repetir. É a África a mostrar que, mesmo quando a dor nos dobra, a esperança de paz continua de pé. Mas a esperança sem acção é apenas lamento. A oração sem justiça é apenas eco.
O que este momento exige de nós, africanos, é coragem tripla: coragem para nomear o mal pelo nome, coragem para exigir que os nossos governos protejam todas as vidas com a mesma determinação, e coragem para construir uma solidariedade continental que não dependa apenas do olhar do Ocidente ou de Israel. A salvação da Nigéria – e de África – não virá apenas de Trump ou de Netanyahu. Virá, primeiro, de nós próprios: de líderes que deixem de negar, de sociedades que deixem de relativizar, de igrejas e mesquitas que se unam na defesa da vida humana acima de qualquer bandeira.
Enquanto o Reverendo Dachomo chora sobre a terra que engoliu os seus, a pergunta que fica a pairar sobre o continente é simples e cruel: até quando vamos continuar a enterrar os nossos em silêncio? Até quando a oração será o único exército que restará aos que já não têm forças para lutar?
Que a paz reine, sim. Mas que reine com justiça, com protecção real e com a dignidade de um povo que se recusa a ser dizimado enquanto o mundo – e nós próprios – olhamos para o outro lado.

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