A GUERRA DO CHAPATI: O DILEMA ENTRE PROTECCIONISMO E A VERDADEIRA UNIDADE AFRICANA

Quando o Protecionismo Económico Esbarra na Realidade Africana

Em Juba, capital do Sudão do Sul, o comissário local, Kalisto Lado, gerou intensa polémica ao ordenar que comerciantes estrangeiros abandonem o comércio retalhista de pequena escala, como a venda de quilos de cebola, tomate ou o preparo de chapati. 

A medida, justificada pela necessidade de proteger o sustento das mulheres sul-sudanesas, reacendeu um debate continental sobre reciprocidade, capacidade empreendedora local e os verdadeiros caminhos para o desenvolvimento económico em África.

A decisão do comissário de Juba não é um caso isolado. Ela ecoa um sentimento latente em várias nações africanas: o desejo legítimo de reservar os frutos da terra para os filhos da terra. 

Contudo, quando o alvo é o vendedor ambulante ou o pequeno mercador, a medida arrisca-se a transformar-se num tiro no pé. A presença de comerciantes estrangeiros, muitas vezes vindos de países vizinhos, não representa apenas uma concorrência; é, também, uma aula prática de resiliência, gestão e empreendedorismo no terreno.

Como bem apontam vozes críticas neste debate, uma sociedade que despreza o pequeno comércio, encarando-o como um labor de menor classe, enquanto nutre uma obsessão por empregos de colarinho branco, dificilmente construirá uma base económica sólida. O caminho para a soberania não passa pela expulsão, mas pela inclusão inteligente. Políticas que incentivem os negócios estrangeiros a integrar e a formar cidadãos locais nos seus processos criariam uma ponte de conhecimento, transformando a concorrência em cooperação e transferência de saberes. É preciso sentar e aprender, antes de erguer barreiras.

Além disso, a memória continental é longa e a reciprocidade é um pilar fundamental da nossa coexistência. Milhares de refugiados e migrantes sul-sudaneses encontram, em países como Uganda, a liberdade de exercerem exatamente essas mesmas atividades de subsistência sem serem hostilizados. 

A verdadeira unidade africana, tão apregoada nos discursos diplomáticos, mede-se precisamente nestes microespaços de convivência diária. Expulsar o outro é, no fundo, negar a reciprocidade que sustenta a nossa própria diáspora quando esta precisa de acolhimento.

O desafio do Sudão do Sul, e por extensão de toda a África, não é erguer muralhas em torno do comércio de rua, mas sim erguer pontes de capacitação. Proteger o mercado nacional é um direito soberano, mas fazê-lo através da exclusão, sem antes ter cultivado a semente do empreendedorismo local, é condenar as próprias mulheres que se pretendem proteger a um isolamento ainda mais profundo. 

A verdadeira vitória não está em proibir o chapati do outro, mas em garantir que as mãos locais saibam amassar a sua própria massa com orgulho, eficiência e visão de futuro. Só assim o protecionismo deixará de ser um refúgio da incapacidade para se tornar, de facto, uma ferramenta de emancipação.


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