SAIBA COMO O RITUAL DE TANGA EXPÕE A ALMA FERIDA DOS RELACIONAMENTOS
Quando o Amor Vira Feitiço e o Coração Vira Cadeia
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| Elas deitam-se no chão, recebem a serpente e “ligam” os homens para extrair dinheiro. |
Um vídeo que circulou nas redes sociais a 23 de Outubro de 2026 mostra um cenário que muitos prefeririam ignorar. Num espaço decorado a vermelho e preto, várias jovens mulheres deitam-se lado a lado no chão de azulejos. Um homem, identificado como mganga oriundo de Tanga, Tanzânia, movimenta-se entre elas com fumo, objectos rituais e uma serpente viva. A cobra é colocada sobre o corpo de uma das mulheres enquanto as outras permanecem imóvel, olhos semi-cerrados, em aparente estado de entrega. O ambiente é denso, carregado de incenso e de uma tensão que se sente mesmo através do ecrã.
A legenda que acompanha as imagens é directa e cortante: as “namoradas compreensivas” que vão ao mganga de Tanga para “ligar” os seus homens — ou os pais dos seus filhos — com o único objectivo de conseguir dez mil xelins para beber e divertir-se no fim-de-semana. Dez mil. Não para sobreviver. Não para pagar a renda. Para embriagar o fim-de-semana.
O vídeo espalhou-se rapidamente. Centenas de milhares de visualizações, partilhas, comentários que oscilam entre o riso nervoso e o silêncio pesado. Não é a primeira vez que Tanga surge no imaginário popular como terra de curandeiros especializados em assuntos de coração e de bolso. Mas desta vez a imagem é demasiado nua. Demasiado concreta. Demasiado humana.
E é precisamente essa humanidade que dói.
Porque o que está em causa não é apenas um ritual. É um espelho. Um espelho que reflecte a forma como muitos de nós — homens e mulheres — transformámos o afecto em estratégia, a intimidade em investimento e o corpo do outro em campo de batalha espiritual.
Há uma lógica fria por detrás do gesto. Se o amor já não chega, se a confiança se desfez, se o diálogo se esgotou, resta o recurso ao invisível. O feitiço torna-se a última linguagem possível quando as palavras já não servem. “Ligar” o outro é, no fundo, confessar que se teme a liberdade dele. É admitir que o laço natural não é suficiente. É transformar o desejo de companhia em necessidade de posse.
E dez mil xelins no fim-de-semana? Esse detalhe é quase obsceno na sua banalidade. Não se trata de uma grande fortuna. Trata-se de um valor simbólico: o preço de uma noite de alegria comprada com o controlo do outro. O dinheiro deixa de ser meio e passa a ser prova de poder. “Se ele me dá, é porque está ligado.” A lógica é circular e cruel.
Mas o problema não está só do lado de quem procura o mganga. Está também do lado de quem cria as condições para que o mganga seja necessário. Quantos homens vivem relações de conveniência, de uso mútuo, de silêncios calculados? Quantas mulheres se sentem reduzidas a objecto de prazer ou de prestígio, e respondem com a única arma que ainda lhes resta — a espiritual? A feitiçaria, neste caso, não é apenas superstição. É resposta a uma ferida. Uma ferida que a modernidade não curou e que a tradição, por vezes, apenas aprofunda.
Tanga não é o vilão. Tanga é o sintoma. O verdadeiro drama está na incapacidade colectiva de construir relacionamentos onde a liberdade do outro não seja ameaça. Onde o dinheiro não seja a medida do afecto. Onde o corpo não precise de ser “ligado” para permanecer.
Há uma pergunta que o vídeo deixa pairar no ar, quieta e incómoda: quantos de nós, neste preciso momento, estamos a viver relações que só se mantêm porque alguém, em algum lugar, acendeu uma vela, amarrou um nó ou falou com uma serpente? E quantos de nós preferimos não saber?
O amor verdadeiro não precisa de correntes. Nem de serpentes. Nem de dez mil no fim-de-semana. O amor verdadeiro é o único feitiço que não precisa de ser escondido.
E talvez seja exactamente por isso que ele continua a ser o mais raro de todos.

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