A HIPÓCRISIA QUE CLICA MAIS DO QUE A VIRTUDE

Por que Condenamos a Carne e a Consumimos em Silêncio

Numa análise recente dos padrões de consumo digital em plataformas e blogs de opinião em Moçambique e no continente, verifica-se um fenómeno repetido e quase silencioso: conteúdos com apelo visual sensual ou temáticas de feminização e desejo registam consistentemente mais visualizações do que textos densos sobre política, ética ou cultura. O mesmo padrão aparece nas conversas públicas. Pessoas que se apresentam como conservadoras ou “mais cultas” criticam a promiscuidade com tom severo, quase esmagador, enquanto a maioria simplesmente consome, aprecia e não reclama. O contraste não é novo. É apenas mais visível na era do clique.

Esta contradição não nasce de maldade deliberada. Nasce da própria arquitectura do ser humano. A crítica pública à promiscuidade funciona, muitas vezes, como sinal de estatuto. Quem a formula está a dizer, sem o confessar: “Eu controlo os impulsos, tenho critérios, pertenço a um grupo que valoriza a disciplina.” Em certos círculos, esse discurso rende prestígio simbólico a baixo custo. Não exige coerência total com a vida privada. Exige apenas performance. E a performance, como se sabe, é mais fácil de manter do que a integridade.

Por outro lado, o desejo não pede licença à ideologia. Continua a operar nos mesmos circuitos cerebrais que operavam há milénios. O estímulo sexual é de baixo esforço e alta recompensa. Uma imagem bem escolhida, uma capa ambígua, um título que sugere o corpo ou a transgressão capturam a atenção em segundos. Já um texto que exige atenção sustentada, conhecimento prévio e disposição para pensar encontra resistência natural. A economia da atenção não premia a profundidade. Premia o que prende o olhar antes que o dedo deslize para o próximo ecrã. Por isso os conteúdos educativos e “cultos” perdem em volume, mesmo quando ganham em qualidade junto de um público mais restrito.

Há aqui uma hipocrisia colectiva que raramente é nomeada com honestidade. Muitos daqueles que mais condenam a promiscuidade em voz alta são os mesmos que, em silêncio, a consomem. Estudos de comportamento digital e de consumo de conteúdo erótico mostram, consistentemente, que a procura atravessa classes, ideologias e declarações de valores. A diferença está na coragem de admitir. Uns falam alto e clicam baixo. Outros simplesmente clicam e seguem. O resultado é o mesmo: a carne vence a retórica.

Não se trata de celebrar a promiscuidade nem de condenar quem a critica. Trata-se de reconhecer a distância entre o que se prega e o que se pratica. Essa distância é humana. É antiga. Mas torna-se especialmente reveladora quando se observa o tráfego real das plataformas. O algoritmo não tem moral. Responde apenas ao que prende. E o que prende, com mais frequência, continua a ser aquilo que a moral pública diz rejeitar.

Talvez o verdadeiro escândalo não esteja na existência do desejo, mas na recusa colectiva de olhar de frente para a própria inconsistência. Enquanto a virtude for apenas discurso e o prazer for apenas consumo silencioso, continuaremos a produzir textos densos que poucos lêem e capas sensuais que muitos clicam. E o silêncio entre os dois continuará a dizer mais sobre nós do que qualquer condenação pública.

A pergunta que fica, então, não é se a promiscuidade é boa ou má. É se estamos dispostos a admitir que a maior parte de nós, em algum momento, já preferiu o clique fácil à reflexão difícil. E se, ao admiti-lo, ainda conseguimos manter alguma coerência entre a voz que condena e a mão que desliza no ecrã.



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