AS CADEIRAS SE ESVAZIAM OUTRA VEZ PARA ISRAEL

O Silêncio que Grita Mais Alto que Qualquer Discurso

No dia 15 de Outubro de 2026, em Baku, capital do Azerbaijão, durante a sétima Cimeira da Conferência sobre Interacção e Medidas de Confiança na Ásia (CICA), as delegações do Irão, do Paquistão, da Turquia e do Kuwait levantaram-se e abandonaram a sala no exacto momento em que o presidente de Israel, Isaac Herzog, iniciava a sua intervenção. O gesto, captado em vídeo e amplamente difundido, transformou um fórum formalmente dedicado à cooperação e à confiança num teatro de rejeicção diplomática.

Há gestos que não precisam de palavras. Levantar-se e sair, em pleno auditório internacional, enquanto um chefe de Estado sobe ao púlpito, é uma das formas mais antigas e mais eloquentes de protesto. Não é um grito. É um silêncio calculado. Um silêncio que ocupa o espaço deixado vazio e obriga todos os restantes a olhar para as cadeiras abandonadas.

Este tipo de protesto não é novo. Já se viu em assembleias das Nações Unidas, em conferências regionais e em múltiplos fóruns multilaterais. O que o torna particularmente revelador em Baku é o contexto em que ocorre. A CICA existe, teoricamente, para construir confiança entre nações asiáticas. Israel é membro desde a fundação. Vários dos países que abandonaram a sala não mantêm relações diplomáticas com Telavive. O encontro, portanto, já nascia carregado de tensão. A saída das delegações não criou o conflito; apenas o tornou visível.

O valor simbólico do gesto é inegável. Num mundo em que as palavras perdem peso a cada comunicado oficial, o corpo que se recusa a permanecer sentado recupera alguma força. Diz, sem pronunciar uma sílaba: a vossa presença neste espaço é inaceitável para nós. Diz também que a normalização diplomática tem limites e que certos actos — ou a percepção de certos actos — ainda conseguem provocar ruptura pública.

Mas o símbolo, por si só, raramente altera a realidade. Após a saída, as mesmas delegações continuam a operar no mesmo sistema internacional. Continuam a negociar, a comprar, a vender, a manter canais oficiais e oficiosos. O gesto de rejeição convive com a necessidade prática de coexistência. Esta dualidade não é hipocrisia ingénua; é a natureza mesma da diplomacia contemporânea. O teatro do protesto e a pragmática dos interesses correm em paralelo, muitas vezes no mesmo corredor.

Há quem veja nestes abandonos de sala um sinal de isolamento crescente. Outros interpretam-nos como meros rituais de conforto interno, destinados mais a apaziguar opiniões públicas domésticas do que a produzir consequências reais. Ambas as leituras contêm verdade. Um gesto que não é acompanhado de medidas concretas — suspensão de relações económicas, revisão de parcerias estratégicas, pressão coordenada em outros fóruns — corre o risco de se tornar apenas performance. A cadeira vazia impressiona no momento. No dia seguinte, a mesa continua cheia de outros actores.

Ao mesmo tempo, ignorar o significado do silêncio seria um erro. Cada vez que um conjunto de países escolhe publicamente não ouvir, está a registar, perante a plateia mundial, que certas linhas vermelhas ainda existem. Está a lembrar que a normalização forçada tem custos de imagem e de legitimidade. Em tempos de polarização profunda, estes registos acumulam-se. Não mudam o mapa de um dia para o outro, mas alteram o clima político em que as decisões futuras serão tomadas.

A Cimeira de Baku não resolveu nenhum conflito. Não pretendia resolver. O que revelou, com clareza quase teatral, é a fragilidade da confiança que o próprio fórum pretende construir. Quando a confiança é tão frágil que a mera presença de um orador esvazia parte da sala, o que está em causa não é apenas uma disputa bilateral. É a dificuldade de construir espaços verdadeiramente comuns num mundo onde as feridas históricas e as realidades do presente se recusam a ser arquivadas.

O silêncio das cadeiras vazias ecoa mais longe do que muitos discursos bem elaborados. Pergunta-nos, a todos, se ainda acreditamos que a diplomacia pode ser mais do que gestão de interesses e ritual de protesto. Pergunta-nos se o acto de levantar-se e sair ainda carrega alguma esperança de mudança, ou se se tornou apenas a forma mais elegante de dizer que, por enquanto, preferimos não ouvir.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O REGISTO QUE O AMANHÃ NÃO PERDOA

CASADAS EM CASA, SOLTEIRAS NO SERVIÇO

NEM SEMPRE O QUE PAGAS É O QUE RECEBES.