VOTAÇÃO ONU SOBRE O EMBARGO DOS EUA A CUBA

Mais uma vez: a África se Divide Diante do Bloqueio a Cuba

Na quarta-feira, 28 de Outubro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, pela 34.ª vez consecutiva, uma resolução que apela ao fim do embargo económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba. O texto obteve 130 votos a favor, 17 contra e 25 abstenções. Entre os votos contrários, destacou-se o de Marrocos, o único país africano a alinhar-se nessa posição.

Este resultado, embora previsível no seu desfecho geral, carrega um peso simbólico que ultrapassa a aritmética das votações. Durante mais de três décadas, a vasta maioria da comunidade internacional tem condenado, ano após ano, uma medida nascida em pleno período da Guerra Fria e que continua a afectar a vida quotidiana de um povo. O facto de o apoio ter diminuído em relação a anos anteriores (quando as margens eram ainda mais amplas) revela as pressões diplomáticas em curso e a crescente polarização das alianças globais. No entanto, é a solidão africana de Marrocos neste voto que convida a uma reflexão mais profunda sobre o sentido da unidade continental e sobre o preço da soberania na actual ordem internacional.

A África, historicamente marcada por experiências partilhadas de colonialismo, sanções e interferências externas, costuma encontrar na Assembleia Geral um espaço privilegiado para afirmar a sua voz colectiva. O princípio da não-ingerência e a defesa da autodeterminação dos povos têm sido, durante décadas, bandeiras comuns. Quando um país do continente se afasta dessa tradição num tema tão carregado de memória anticolonial como o caso cubano, interroga-se inevitavelmente o significado dessa escolha. Há quem veja nela o exercício legítimo de uma política externa orientada por interesses nacionais concretos: a ausência de relações significativas com Havana, a consolidação de parcerias estratégicas com potências ocidentais e a prioridade dada a agendas de desenvolvimento e segurança que passam por Washington e pelos seus aliados mais próximos. Nessa perspectiva, votar contra não seria traição, mas realismo.

Porém, o realismo geopolítico raramente se apresenta de forma neutra. Ele revela, com clareza por vezes desconfortável, quais são as hierarquias de solidariedade que um Estado privilegia. Quando se invoca a necessidade de manter boas relações com quem detém poder económico e político relevante, corre-se o risco de transformar a soberania num exercício de acomodação permanente. A história africana ensina que as alianças assimétricas, por mais vantajosas que pareçam no curto prazo, tendem a limitar a margem de manobra futura e a enfraquecer a capacidade de o continente falar com uma só voz nas grandes questões internacionais. A solidariedade não é um sentimento abstracto; é uma prática que se constrói, ou se desfaz, em cada voto, em cada declaração, em cada silêncio calculado.

Cuba, por sua vez, permanece um símbolo ambíguo. Para uns, representa a resistência de um pequeno país perante a pressão de uma superpotência; para outros, exemplifica os custos de um modelo político e económico que não conseguiu garantir prosperidade ao seu povo. O embargo, contudo, transcende essas avaliações. Ele constitui uma medida de carácter extraterritorial que afecta terceiros Estados e viola princípios básicos do direito internacional reconhecidos pela própria Carta das Nações Unidas. Condená-lo não implica necessariamente endossar o governo de Havana; significa, antes, recusar a legitimidade de um instrumento de coerção económica prolongada. Quando um país africano se afasta desta posição maioritária, contribui, mesmo que involuntariamente, para normalizar a ideia de que o poder pode sobrepor-se ao direito.

O episódio de quarta-feira convida, portanto, a um exame de consciência colectivo. Que África queremos projectar no século XXI? Uma África que negocia a sua unidade em função das conveniências do momento, ou uma África capaz de sustentar princípios mesmo quando isso implica algum desconforto diplomático? A resposta não se esgota em acusações fáceis nem em defesas automáticas. Exige lucidez para reconhecer que os interesses nacionais existem e devem ser defendidos, mas também coragem para admitir que a fragmentação das posições continentais enfraquece a todos. No tabuleiro das relações internacionais, a solidariedade não é um luxo; é, muitas vezes, a única forma de evitar que a África continue a ser peça móvel nas estratégias de outros.

O voto de Marrocos não anula a vitória simbólica de Cuba nesta resolução. Serve, contudo, como espelho. Reflecte as tensões reais que atravessam o continente: entre soberania e dependência, entre memória histórica e cálculo pragmático, entre a aspiração a uma voz própria e a tentação de se alinhar com quem detém os meios de pressão. Cabe a cada Estado africano decidir de que lado desse espelho pretende ficar. E cabe à sociedade civil, aos pensadores e aos cidadãos comuns continuar a verbalizar essas escolhas, para que o silêncio não se torne, por omissão, uma forma de consentimento.

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