O ESTRANGULAMENTO DA REPÚBLICA

Quando o Poder se Confunde com a Barbárie

Notícia: O que se sabe até agora?

Um Ministro estrangulou seu Chefe de Gabinete antes da chegada da Primeira-Ministra a Kindu, no Maniema.

Circula nas redes sociais, a denúncia de um episódio que desafia a imaginação e ultrapassa os limites da decência: um ministro teria estrangulado o seu próprio diretor de gabinete (Dircab) antes da chegada da Primeira-Ministra à cidade de Kindu, capital da província do Maniema, no leste da República Democrática do Congo (RDC). O relato, ainda sem confirmação oficial detalhada, aponta para um cenário de violência física no seio da própria administração, envolvendo figuras que deveriam personificar a autoridade do Estado.

As informações disponíveis são fragmentadas e levantam mais questões do que respostas: qual seria o ministro envolvido — nacional ou provincial? Quais teriam sido os motivos que levaram a um gesto tão extremo? As autoridades congolesas, até ao momento, não emitiram uma posição clara que esclareça a dimensão e a veracidade dos factos. O que se sabe, a partir de relatos convergentes, é que o clima de tensão política na região é palpável e que a violência tem sido uma ferramenta recorrente nas disputas pelo poder local. Um artigo do portal Foxtime.cd descreve um episódio paralelo, ocorrido no aeroporto de Kindu, onde um director de gabinete adjunto se envolveu numa rixa generalizada com um colaborador de um deputado, supostamente a mando de um ministro provincial do Orçamento. A cena, classificada como "surrealista" e "vergonhosa", é ilustrativa de um modus operandi: a violência como extensão da política.

A denúncia original acrescenta uma camada de crítica política ao episódio, ao associá-lo aos esforços em curso para alterar a Constituição da RDC, permitindo a perpetuação no poder. "E vocês querem mudar a constituição e eternizar-se no poder, para nos humilhar cada dia", questiona o autor da publicação. A pergunta não é retórica. É um grito de indignação que ecoa muito além de Kindu.

Análise: A violência como linguagem de um Estado capturado

O estrangulamento, real ou simbólico, de um subordinado por um superior hierárquico não é apenas um crime comum. É a metáfora mais crua de um Estado que, em vez de proteger, asfixia. Quando um ministro — alguém investido da responsabilidade de servir o interesse público — recorre à força bruta para resolver uma divergência, o que está em causa não é um desentendimento pessoal. É a própria natureza do poder.

A cena, se confirmada, revela uma inversão ontológica: o Estado deixa de ser a entidade que monopoliza a violência legítima para se tornar o palco onde a violência ilegítima é exercida com impunidade. O diretor de gabinete, figura de confiança e elo entre o ministro e a administração, torna-se o alvo perfeito. O seu "crime" pode ter sido discordar, falhar numa lealdade cega ou simplesmente estar no lugar errado na hora errada. O que importa é que o mais fraco na hierarquia é o que paga.

Este episódio não pode ser lido isoladamente. Ele insere-se num contexto mais vasto de violência política que tem marcado a vida congolesa. Em Kindu e no Maniema, a insegurança e a intimidação são moeda corrente. Manifestações contra a mudança da Constituição são proibidas, opositores são detidos e a tensão é constante. A violência não é um acidente de percurso; é uma tecnologia de governação. Serve para silenciar, para amedrontar e para lembrar quem manda.

A tentativa de alterar a Constituição para permitir um terceiro mandato do Presidente Félix Tshisekedi é o corolário lógico deste estado de coisas. A Constituição congolesa, no seu artigo 220.º, estabelece que o número e a duração dos mandatos presidenciais não podem ser objeto de revisão. No entanto, uma lei aprovada e validada pelo Tribunal Constitucional abriu a porta para um referendo que poderá contornar esta limitação. O que está em jogo não é apenas a letra da lei, mas a alma de uma nação. A possibilidade de um terceiro mandato não é um detalhe técnico; é a negação do princípio republicano mais elementar: o de que o poder é transitório e que a alternância é a salvaguarda contra a tirania.

A ligação entre o estrangulamento em Kindu e a manobra constitucional em Kinshasa é direta. Ambos são manifestações da mesma lógica: a captura do Estado por uma elite que confunde o interesse público com o interesse próprio. O ministro que estrangula o seu subordinado e o presidente que procura um terceiro mandato partilham a mesma convicção: a de que as regras não se aplicam a eles. A violência física é apenas a forma mais visível de uma violência estrutural que se exerce todos os dias através da impunidade, da corrupção e da indiferença perante o sofrimento da população.

Opinião: A República Asfixiada

O que aconteceu em Kindu, ou o que se diz que aconteceu, é mais do que uma notícia de escândalo. É um espelho. Um espelho que reflete a face de um regime que perdeu a vergonha. Um ministro que estrangula o seu diretor de gabinete não está apenas a cometer um ato de violência; está a enviar uma mensagem a todos os que ousam discordar: o poder não se questiona, obedece-se. E quem não obedece, sufoca.

Esta é a lógica do estrangulamento. Não a do diálogo, da persuasão ou da razão. É a lógica da força bruta, da eliminação do outro, da redução do adversário a um obstáculo a ser removido. Quando esta lógica se instala no topo da hierarquia do Estado, o que resta para os cidadãos comuns? Resta o silêncio, o medo e a humilhação. A mesma humilhação que o autor da denúncia expressa quando interpela os que querem "eternizar-se no poder".

A RDC não precisa de um terceiro mandato. Precisa de um novo contrato social. Precisa de instituições que funcionem, de uma justiça que não seja seletiva e de uma classe política que compreenda que o poder é um serviço, não uma propriedade. O estrangulamento de um diretor de gabinete é a antítese de tudo isso. É a prova de que, para alguns, o Estado é apenas um instrumento de dominação.

A esperança, se é que existe, reside na sociedade civil, nos movimentos de cidadãos, nos jovens que se recusam a aceitar a normalização da barbárie. A coalizão C64, que se opõe à mudança da Constituição, é um sinal de que nem todos se resignaram. Mas a resistência não pode ser apenas política; tem de ser ética. Tem de exigir responsabilização. O ministro que estrangulou o seu diretor de gabinete deve ser investigado, julgado e punido. O mesmo se aplica a todos os que, em Kindu, em Kinshasa ou em qualquer outra parte do país, usam o poder para oprimir.

A República está a ser estrangulada. E, desta vez, não podemos fingir que não vemos as marcas no pescoço.

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