O SERVIÇO DE ONCOLOGIA DO HCM EM CINZAS

Quando o fogo Consome a Última Esperança


Incêndio de grandes proporções consome e destrói o Edifício do Serviço de Oncologia do Hospital Central de Maputo.

Por Hercílio Lucas Thomossene

Na manhã deste domingo, 1 de Novembro de 2026, um incêndio de grandes proporções deflagrou no edifício do Serviço de Oncologia do Hospital Central de Maputo, na Avenida Salvador Allende. As chamas, que começaram na ala traseira e se espalharam rapidamente, destruíram grande parte da estrutura. Todos os pacientes internados foram evacuados a tempo. As causas permanecem desconhecidas e as equipas de salvação pública combateram o fogo no local. Trata-se da principal unidade pública de tratamento de cancro no país.

Há instantes em que o fogo não queima apenas paredes, tetos e equipamentos. Queima a confiança. Queima a espera paciente de quem luta diariamente contra uma doença que já exige coragem a dobrar. O Serviço de Oncologia do Hospital Central de Maputo não era apenas um prédio. Era, para milhares de moçambicanos, o lugar onde a esperança ainda tinha endereço. Era o sítio onde se tentava travar o avanço de um mal que, no nosso país, continua a chegar demasiado tarde ao diagnóstico e a encontrar respostas demasiado frágeis.

Este incêndio não acontece num vazio. Acontece num contexto em que o único equipamento de radioterapia do país já acumulava períodos longos de paralisação. Acontece num sistema de saúde que, apesar dos esforços de muitos profissionais dedicados, continua a depender de estruturas vulneráveis, de manutenção irregular e de uma capacidade de resposta que, em momentos críticos, se revela insuficiente. Quando o fogo destrói o pouco que existe, a pergunta que fica não é apenas “como aconteceu?”, mas “até quando vamos continuar a tratar a saúde pública como se fosse um luxo secundário?”.

Quem conhece a realidade dos doentes oncológicos em Moçambique sabe o que significa perder este espaço. São pessoas que já viajam de províncias distantes, que enfrentam filas, falta de medicamentos, interações de tratamentos e o peso emocional de uma doença que atinge não só o corpo, mas famílias inteiras. São mães, pais, jovens e idosos que depositavam naquele serviço a última possibilidade de continuidade. Quando as chamas consomem o edifício, consomem também rotinas de tratamento, planos de recuperação e a sensação de que, apesar de tudo, ainda havia um lugar aonde ir.

A reflexão que se impõe vai além da tristeza imediata. Obriga-nos a olhar para a fragilidade estrutural que permite que um serviço essencial possa desaparecer num só domingo de manhã. Obriga-nos a questionar se a prevenção de riscos, a manutenção preventiva e a redundância de infraestruturas críticas estão realmente no centro das prioridades nacionais. Obriga-nos, sobretudo, a reconhecer que a dignidade de um povo também se mede pela capacidade de proteger aqueles que já lutam pela própria vida.

Não se trata de apontar dedos no calor do momento. Trata-se de reconhecer que um país que aspira a desenvolver-se não pode continuar a ver os seus serviços de saúde mais especializados a sucumbir a falhas evitáveis ou a catástrofes sem resposta robusta. O cancro não espera que as estruturas sejam reconstruídas. A dor não faz pausa enquanto se investigam causas. E a esperança, uma vez queimada, demora muito mais a renascer do que as paredes a serem levantadas de novo.

Que este episódio não se transforme apenas numa notícia de um domingo trágico. Que se torne um ponto de viragem na forma como olhamos para a saúde pública, para a proteção das instalações essenciais e para a dignidade daqueles que mais precisam. Porque, no fim de contas, um hospital não é feito apenas de betão e equipamentos. É feito da confiança de um povo que, mesmo doente, ainda acredita que o Estado consegue cuidar dele.

Que as cinzas de hoje sirvam, pelo menos, para iluminar a urgência de amanhã.



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