“PAÍSES DE MERDA”: A FRASE QUE DESNUDA A HIERARQUIA DO MUNDO
Trump Volta a Chamar de “Buraco de Merda” os Países que o Mundo Preferiu Esquecer
![]() |
| Presidente Donald Trump, num comício: • "98% das pessoas que vêm da Somália para cá não trabalham. Elas não precisam trabalhar porque roubam. • Todos eles têm Mercedes. São de QI baixo e vivem melhor do que vocês." • Líbia, Iêmen, Haiti, Somália. Eu chamo esses de países de merda. • Por que sempre temos que receber pessoas desses países de merda? • Por que não podemos receber pessoas da Noruega, Suécia, Dinamarca?" |
Num comício realizado em Perry, no estado da Geórgia, Estados Unidos, no fim de semana de 24 e 25 de Outubro de 2026, o Presidente Donald Trump retomou com força a linguagem que há anos marca a sua visão sobre imigração. Diante de uma multidão de apoiantes, classificou a Somália, a Líbia, o Iémen e o Haiti como “países de merda” (ou “shithouse countries”), afirmou que 98 por cento dos somalis residentes nos EUA não trabalham porque “roubam tanto”, que todos possuem Mercedes e que, apesar do “baixo QI”, vivem melhor do que muitos americanos. Perguntou, em tom de provocação, por que razão os Estados Unidos não recebem preferencialmente pessoas da Noruega, da Suécia ou da Dinamarca. As declarações, rapidamente difundidas em vídeo, reacenderam o debate global sobre racismo, imigração selectiva e a hierarquia moral que ainda governa o olhar do Norte sobre o Sul.
Há algo profundamente revelador quando um líder de uma das nações mais poderosas do planeta reduz povos inteiros a estereótipos de preguiça, criminalidade e inferioridade intelectual. A frase não é apenas ofensiva; é um espelho. Ela reflecte a incapacidade de reconhecer que muitos dos chamados “buracos de merda” foram, durante décadas e séculos, sistematicamente espoliados, desestabilizados e transformados em zonas de extracção de recursos e de mão-de-obra barata. Os mesmos poderes que hoje apontam o dedo são frequentemente os que alimentaram guerras por procuração, instalaram e derrubaram regimes, e deixaram para trás instituições frágeis e economias dependentes.
Quando se esquece essa história, torna-se fácil transformar a vítima em ameaça.
A ideia de que imigrantes de certos países “não trabalham” e “vivem melhor” porque roubam ignora realidades mais complexas e contraditórias. Em muitos contextos, as comunidades somalis e outras diásporas africanas e caribenhas nos Estados Unidos enfrentam barreiras de discriminação no emprego, falta de reconhecimento de qualificações e ciclos de pobreza intergeracional. Ao mesmo tempo, há quem trabalhe em turnos duplos, em serviços essenciais, em condições que muitos cidadãos nativos evitam.
A imagem do Mercedes como prova de crime é uma generalização preguiçosa que mascara tanto a existência de redes ilícitas (que existem em todas as comunidades) quanto a capacidade de esforço e de mobilidade social de milhares de famílias. Inverter o estereótipo e afirmar que os próprios americanos seriam os verdadeiros “de baixo QI” que vivem de privilégios históricos também não resolve o problema; apenas troca um preconceito por outro.
O que mais dói, porém, é a normalização da linguagem da hierarquia humana. Preferir imigrantes de países nórdicos não é apenas uma preferência cultural ou económica; é a afirmação explícita de que certos corpos e certas origens valem mais do que outros. Essa lógica não nasceu com Trump. Ela ecoa séculos de pensamento colonial que classificava povos segundo a sua “utilidade” e a sua “civilização”. Quando um presidente a revitaliza em 2026, não está apenas a falar a uma base eleitoral; está a legitimar um olhar que continua a tornar aceitável o desprezo pelo outro africano, haitiano ou árabe.
Num mundo interligado, a pobreza e a instabilidade de um continente acabam por bater à porta do outro. Fechar os olhos à responsabilidade histórica e moral não resolve a pressão migratória; apenas a torna mais amarga e mais perigosa. A verdadeira pergunta que as declarações levantam não é se a Somália ou o Haiti são “países de merda”. A pergunta é se as sociedades que se consideram superiores estão dispostas a confrontar as causas profundas que transformaram essas nações em lugares de sofrimento e a construir políticas migratórias baseadas em dignidade, não em desprezo.
Enquanto o poder continuar a medir o valor dos seres humanos pela cor da pele, pelo PIB do país de origem ou pelo estereótipo mais conveniente, a humanidade permanecerá pequena. E os “buracos de merda” continuarão a ser, em grande medida, o resultado do lixo que outros preferiram não limpar.
Prontos!
De: Atanásio Mole Nzunza, Lisboa. PT para o Verbalyzador, com carinho.

Comentários
Enviar um comentário