HÁ TREMENDA NECESSIDADE DE REFORÇAR AS ESCOLAS PRÁTICAS E PROFISSIONAIS
O Chamado Urgente para uma Educação que Honra o Trabalho e o Futuro de África
A vontade de escrever no sentido de ajudar o país minimizar o sofrimento do seu povo é tanta. A operação difícil é como fazer isso sem ferir sensibilidades, ganhar chamar atenção para mais engajamento e ter algo em troca de forma imediata para continuar a sustentar a paixão e a sobrevivência da plataforma. Porém, enquanto sobrar um pingo de energia, traremos reflexões do género e tentando no máximo falar sobre os 590,000 dólares de viagem do PR e atrasos ou incertezas de salários na função pública e outros problemas.
Pois, num mundo que corre velozmente para o digital e para as abstrações académicas, surge uma voz que nos obriga a olhar para trás, não com nostalgia barata, mas com a lucidez de quem reconhece que o progresso sem raízes se transforma em ilusão. A proposta de reabrir as escolas técnicas e profissionais que outrora marcaram o sistema educativo sul-africano, por exemplo, antes de 1994, restaurando disciplinas como Marcenaria, Agricultura, Economia Doméstica, Canalização e Instalação Eléctrica nas escolas públicas, não é apenas uma medida política. É um grito civilizacional.
Pensemos por um instante. Quantos jovens moçambicanos, sul-africanos ou de outros cantos do continente terminam o ensino médio cheios de certificados, mas vazios de habilidades concretas para enfrentar a vida? A escola tornou-se, em muitos casos, uma fábrica de diplomas que prometem mobilidade social, mas entregam, com frequência, frustração e desemprego estrutural. Enquanto isso, as mãos que constroem, que cultivam, que consertam e que sustentam o dia-a-dia das nossas comunidades permanecem subvalorizadas, quase invisíveis no imaginário colectivo.
O Erro Histórico e a Ferida que Ainda Sangra
Fechar essas escolas técnicas foi, em essência, declarar que o conhecimento prático era inferior ao teórico. Uma espécie de elitismo disfarçado de modernidade que desprezou o valor intrínseco do trabalho manual. Hoje, colhemos os frutos amargos: uma juventude desorientada, economias que importam competências básicas que poderiam ser formadas localmente e uma perda progressiva da dignidade associada ao “fazer com as próprias mãos”.
Em Moçambique, onde a agricultura ainda é o pilar da economia e onde a construção, a electricidade e as artes manuais poderiam gerar emprego digno para milhares, essa reflexão ganha contornos ainda mais urgentes. Quantas vezes não vemos estradas a degradarem-se por falta de técnicos qualificados? Quantas comunidades rurais sofrem com a ausência de jovens formados em agronomia prática ou em processamento de produtos locais? A educação que ignora o chão onde pisamos é uma educação que nos desenraíza.
Uma Filosofia da Educação Integral
Restaurar essas disciplinas não significa regressar ao passado, mas resgatar uma sabedoria ancestral: o ser humano realiza-se plenamente quando une o pensamento à acção. A marcenaria ensina precisão, paciência e respeito pela matéria. A agricultura liga-nos à terra e ao ciclo da vida. A economia doméstica valoriza o espaço privado e o cuidado. A canalização e a electricidade ensinam responsabilidade e segurança colectiva. São lições de cidadania, de resiliência e de autonomia.
Numa perspectiva mais profunda, trata-se de combater a alienação moderna. Vivemos numa era em que muitos jovens conhecem mais sobre marcas globais do que sobre as ferramentas que poderiam transformar o seu bairro ou a sua província. Reintroduzir o ensino técnico nas escolas públicas é, portanto, um acto de soberania cultural e económica. É dizer aos nossos filhos que não há vergonha em ser carpinteiro, agricultor ou electricista, pelo contrário, há honra profunda nesse ofício quando exercido com excelência.
O Impacto Humano: Dignidade Recuperada
Imagine um jovem de Nampula ou de Gaza que, em vez de migrar para a cidade em busca de um emprego precário, aprende desde cedo a transformar madeira em mobília, a irrigar correctamente uma machamba ou a instalar um sistema eléctrico seguro. Esse jovem não só ganha competências; ganha autoestima, propósito e a possibilidade real de criar riqueza local. Multipliquem-se esses jovens por milhares e teremos comunidades mais coesas, menos dependentes e mais criativas.
Esta visão alinha-se com uma compreensão humanizada da educação: não como mero preparo para o mercado de trabalho, mas como formação da pessoa integral. O indivíduo que sabe pensar e fazer é mais livre, mais criativo e mais capaz de enfrentar as incertezas do futuro. É a antítese da formação massificada que produz espectadores passivos.
Um Convite à Reflexão Colectiva
A proposta do Dr. Groenewald, embora surgida no contexto sul-africano, ecoa para além das fronteiras. Moçambique, com a sua juventude numerosa e os seus desafios estruturais, tem aqui uma oportunidade dourada de repensar o seu modelo educativo. Não se trata de copiar, mas de adaptar: criar polos de formação técnica contextualizados às realidades locais, integrando saberes tradicionais com tecnologias modernas, valorizando o professor-artesão tanto quanto o académico.
Em última análise, restaurar as escolas técnicas é restaurar a fé no trabalho como via de realização humana. É reconhecer que o verdadeiro desenvolvimento não nasce apenas de discursos grandiosos, mas do suor inteligente, da criatividade aplicada e do respeito pela vocação de cada um. Num continente que tanto precisa de reconstruir as suas bases, este pode ser o passo mais revolucionário: voltar a acreditar nas mãos que constroem.
Que esta reflexão não fique apenas nas palavras de quem escreve e das dezenas dos que vão ler, uma vez que se o conteúdo não for erótico - zero partilha e poucos ou nenhuma visualização. Em todos casos, que inspire pais, educadores, decisores políticos e a própria juventude a exigirem uma educação que não prometa o céu, mas que ensine a transformar a terra que pisamos. Porque, no fim das contas, é nas mãos habilidosas e nas mentes despertas que reside o futuro que sonhamos para Moçambique e para África.
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| Dr. Groenewald propõe reabrir escolas técnicas e profissionais fechadas no pós-1994. |
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