O DRAMA DOS PAPÉIS SEM ALMA NOS ACERVOS E NAS LIXEIRAS UNIVERSITÁRIAS
Monografias no Lixo? Seria o Fim da Linha para o Conhecimento Académico em Moçambique?
Por Paulino Intepo
Ao caminhar pelos arredores de qualquer instituição de ensino superior, seja pública ou privada, em Moçambique, é, para o olhar atento, deparar-se com um paradoxo doloroso, sobre as carteiras, mesas, secretarias, cacifos, estantes ou chão e caixas dos gabinetes e salas, cheias de emaranhado de papéis agrafados ou encadernados. De um lado, bibliotecas abarrotadas de conhecimento técnico; do outro, lixeiras transbordando com as mesmas obras, agora amareladas, húmidas e indistinguíveis do lixo comum.
As imagens que nos chegam não são fruto do acaso; são o retrato fiel do nosso sistema académico: uma fábrica de papel que, na linha de montagem da burocracia, esquece que a sua matéria-prima é o intelecto humano. Porém, todas as instituições juntas, devem ou podem estar a competir com quantidade de descartáveis semanais produzidas por bebés em famílias de certas cidades do país: não só pelos dejectos, mas também pela quantidade de resíduos depositados nas lixeiras ou pelo solo que depois só ficam expostos ao relento.
Nos últimos anos, a discussão sobre a qualidade do ensino superior em Moçambique tem ganhado corpo. Porém, pouco se fala do destino daquilo que deveria ser a coroação do esforço estudantil: o projecto de pesquisa, monografias, teses, etc. Pior que o Estado paga o certificado e não a real prestação de serviços do indivíduo. Questionamo-nos, e é justo que o façamos: por que obrigar milhares de jovens a produzir monografias e teses que, na prática, não serão lidas por mais ninguém para além da tríade autor, supervisor e oponente?
Esta pergunta não é um ataque aos currículos, mas uma denúncia contra a desconexão entre a academia e a realidade nacional. A resposta à pergunta inicial é amarga: o projecto académico tornou-se um mero requisito burocrático. É a chave para o canudo, a prova de que o aluno passou pelos calvários do sistema. No entanto, finda a defesa, o que sobra? Sobra uma pilha de papel que, na maioria das vezes, não tem destino útil.
Da "Caixa de Ressonância" à Lixeira Ecológica
É um exercício de lucidez reconhecer que as nossas universidades, em muitos casos, ainda operam como caixas de ressonância. Replicamos, ano após ano, geração após geração, modelos de pesquisa desenhados para realidades ocidentais que há muito os abandonaram por serem ineficientes. Enquanto o chamado "primeiro mundo" migra para metodologias práticas, portfólios e projectos de extensão comunitária, nós insistimos na formalidade textual de 20 ou 50 a 100 páginas que, na sua essência, "contêm nada, só!". Desde que os verbos requeridos da "Taxonomia de Bloom" estejam bem conjugados entre os objectivos gerais e específicos, bem como o tema ou problema, tenham o termo "impacto", por exemplo.
Mas o problema não é apenas intelectual; é também ambiental e social. Quando aquele monte de papel é descartado, ele não desaparece. Ele vai para as lixeiras a céu aberto, polui o solo e a água, e rivaliza, em volume e desperdício, com outros resíduos urbanos como é o caso dos descartáveis dos bebés que acima nos referimos.
Falta-nos, como país, uma inteligência logística para a reciclagem deste material. Porque é que uma tonelada de monografias não pode ser transformada em papel reciclado para as escolas primárias da zona rural? Porque é que o conteúdo daquelas páginas não pode ser destilado em policy briefs (resumos de políticas públicas) entregues aos governos distritais, para que a comunidade possa, de facto, beneficiar daquele esforço?
Ou, sei lá, pegar esse conjunto de papel, que na sua maioria não plastificado, o qual, depois de um tempo não vemos armazenado nem nas bibliotecas e muito menos lugar algum especial, se não no lixo - mesmo, e remeter a produção de briquetes - o chamado carvão de papel. Podiam, as TCC's ter uma outra vida depois de cumprir a missão burocrática na relação do aluno ou estudante e a instituição.
Desafiar o Sistema: A Universidade que Precisamos
Esta reflexão não deve, contudo, parar na denúncia, aliás que não é. Melhor, não deve parar nos olhos do caro leitor, que Deus lhe abençoe pela paciência. Ela deve servir como um chamado à acção para a mudança de paradigma. A necessidade de produzir projectos académicos é real, porque precisamos formar jovens capazes de pensar criticamente e de estruturar o pensamento.
Contudo, a finalidade precisa ser radicalmente alterada.
Em vez de exigirmos que o estudante encontre "uma solução inovadora" que lhe é impossível financiar, devemos exigir que ele identifique um problema da sua comunidade e proponha um plano de intervenção prático. O papel do orientador não deve ser o de um corrector gramatical, mas de um mentor de impacto social.
Que futuro queremos para as nossas universidades? Queremos ver as pilhas de monografias a alimentar caldeiras de briquetes para cozinhar nas zonas periurbanas, ou queremos ver esse lixo a alimentar a inércia do subdesenvolvimento? A resposta está na nossa capacidade de sermos criativos, não na de sermos repetitivos.
Chega de produzir para a gaveta. Que a nossa ciência comece, finalmente, a ter cheiro de terra molhada e de vida real. O lixo que vemos na imagem abaixo, é o reflexo da nossa pouca capacidade de gestão do conhecimento. Vamos reciclar não só o papel, mas, principalmente, o nosso modelo de ensino.
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