TAL COMO SONHO PARA O ENSINO DO MEU PAÍS: BLÁ-BLÁ-BLÁ ❌ PRODUTO ✅

Na China, engenheiros obtêm doutoramento inventando produtos reais em vez de teses longas. Mergulhe nesta viragem que valoriza a prática e o impacto concreto.

Adeus à Tese de 100 Páginas: Quando Inventar Vale Mais do Que Escrever

Imagina um jovem engenheiro a passar noites a soldar, a testar circuitos, a falhar e a recomeçar até que algo novo (um protótipo funcional, uma técnica inédita, um produto que resolve um problema real) nasce nas suas mãos. Em vez de entregar um volume de cem páginas que irá ocupar prateleira e recolher pó, ele apresenta o resultado tangível do seu trabalho. É exactamente isso que está a acontecer na China: estudantes de engenharia podem agora obter o doutoramento através da invenção de um produto, de uma técnica ou de um projecto concreto, em vez da tradicional dissertação escrita.

Escrever é uma profissão e há quem tenha o dom, além de ciências, é uma arte fora das técnicas que não se aprende de dia para noite, só para pintar em páginas a mencionar autores que nem a alma e o espírito deles soubemos desvendar. Por isso, esta mudança não é um detalhe burocrático. É uma redefinição profunda do que significa “saber”. Durante décadas, o percurso académico privilegiou a capacidade de organizar ideias em texto denso, de citar autores e de defender argumentos perante um júri. 

Quer dizer, o valor residia, em grande medida, no documento final. O mundo real, porém, raramente funciona assim. As empresas não contratam quem sabe escrever bem sobre pontes; contratam quem sabe construí-las, melhorá-las ou inventar novas formas de as erguer. Os laboratórios e as fábricas precisam de soluções que funcionem sob pressão, não de teorias que brilham apenas no papel.

A prioridade ao conhecimento prático sobre o método de memorização e repetição torna-se, neste contexto, quase óbvia. Quando o critério de avaliação deixa de ser a extensão do texto e passa a ser a utilidade do resultado, o estudante é forçado a confrontar-se com a realidade: materiais que falham, custos que limitam, utilizadores que exigem. Aprende a iterar, a colaborar com a indústria, a medir impacto. 

O doutoramento deixa de ser um ritual de passagem académica e transforma-se num ato de criação. Doutoramentos que produzem coisas reais superam, em relevância, aqueles cujos resultados ficam arquivados e esquecidos. Uma tese pode ser brilhante e, ainda assim, irrelevante para o mercado de trabalho. Um produto ou uma técnica validada no terreno carrega consigo a prova de que o conhecimento foi aplicado, testado e aperfeiçoado.

Há ainda um problema mais antigo e mais silencioso ainda: a desconexão entre o que se ensina e o que se faz. Em 2026, continua a existir a expectativa de que um estudante de engenharia dedique anos a produzir um documento formal que pouco ou nada tem a ver com as tarefas que irá desempenhar no dia a dia profissional. Essa exigência, herdada de modelos académicos do século passado, transforma o tempo de formação num exercício de conformidade em vez de um período de descoberta. Quando a avaliação se baseia na capacidade de inventar e entregar, o estudante sai da universidade já com experiência de resolução de problemas complexos, e é exactamente o que o mundo do trabalho exige.

Claro que a mudança levanta questões legítimas. Será que todos os campos do saber devem seguir o mesmo caminho? A investigação fundamental, aquela que não produz resultados imediatos, continua a ser essencial. Nem tudo se reduz a um protótipo. No entanto, para as áreas de engenharia, onde o objectivo final é quase sempre a aplicação, a opção de substituir a tese por um produto representa um avanço de maturidade da consciência nacional. Não elimina o rigor: exige demonstração de funcionamento, validação industrial, defesa oral perante especialistas e, muitas vezes, propriedade intelectual. O que elimina é a ficção de que a escrita longa é, por si só, a medida definitiva da competência.

Reflectir sobre esta transformação obriga-nos a olhar para o que realmente valorizamos na educação superior. Continuamos a premiar quem melhor reproduz o conhecimento existente ou começamos a premiar quem o transforma em soluções novas? Preferimos formar especialistas em formalismos ou formadores de inovação? A resposta não é dicotómica, mas a direcção apontada pela experiência chinesa é clara: em tempos de aceleração tecnológica e de desafios complexos, o conhecimento que permanece apenas no papel perde terreno face ao conhecimento que se materializa e serve.

O verdadeiro doutoramento do século XXI talvez não seja aquele que prova que o candidato leu muito e escreveu bem. É aquele que prova que o candidato conseguiu fazer algo que antes não existia e que esse algo funciona. Quando a invenção passa a ser reconhecida como caminho legítimo para o grau máximo, a universidade deixa de ser apenas um lugar de transmissão de saber e torna-se, finalmente, um lugar de criação de futuro.

E em Moçambique, há alguma vontade em tornar as universidades lugares como estes, ou continuarão ser aqueles corredores que produzem espectadores letrados do futuro, antes de protagonistas?

Nós ficarmos por aqui! O país é vosso e cada povo sabe o que precisa do melhor da sua futura geração, tal como a China e outros países o fazem.

Por Lino TEBULO
linoisabelmucuebo@gmail.com

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