MAIS GRITOS SOBRE IDENTIDADE, EXCLUSÃO E A ALMA DE UMA NAÇÃO

“O País É Nosso”: Quando o Canto da Multidão Ecoa Mais Alto do Que a Política

Na noite de 8 de Outubro de 2026, centenas de pessoas marchavam pela Smith Street, no centro de Durban, África do Sul. A multidão avançava entre edifícios iluminados, com bastões, telemóveis levantados e vozes unidas num canto claro: “O país é nosso, por que há sequer disputa sobre isso?”. O protesto fazia parte de uma jornada de manifestações contra a imigração ilegal e o processamento de pedidos de asilo no Centro de Refugiados da cidade. Ao longo do dia, veículos tinham sido incendiados, lojas saqueadas e tensões entre locais e estrangeiros tinham subido até à intervenção policial. À medida que a noite caía, o canto transformava a rua num corredor de afirmação coletiva.

Os manifestantes agora estão marchando pela Rua Smith em Durban e cantando uma música que diz “o país é nosso, por que há até mesmo uma disputa sobre isso”. Veja o vídeo Clicando na imagem ou na legenda.

Há canções que nascem da dor e outras que nascem da certeza. Esta, cantada com força e ritmo nas ruas de Durban, pertence à segunda categoria. Não é um pedido. Não é uma queixa. É uma declaração. Uma linha traçada no asfalto com a voz de quem se sente dono de algo que, aos seus olhos, está a ser disputado por quem chegou depois.

O canto ecoa uma verdade antiga e, ao mesmo tempo, uma ferida recente. Em muitas sociedades africanas, a terra e o país não são apenas território geográfico. São herança, memória e identidade. Quando a multidão grita que o país é seu, está a invocar esse sentimento profundo de pertença. Mas está também a responder a uma realidade concreta: filas intermináveis nos serviços de Home Affairs, concorrência no comércio informal, pressão sobre empregos escassos e a sensação de que o Estado não protege primeiro quem nasceu dentro das fronteiras.

A força do canto reside precisamente na sua simplicidade. “Por que há sequer disputa sobre isso?” A pergunta não é retorica. É uma acusação dirigida a um sistema que, aos olhos de muitos, parece tratar a cidadania como um detalhe burocrático e a solidariedade continental como um dever absoluto. Em Durban, como noutros pontos da África do Sul, a frustração acumulada transformou-se em marcha, e a marcha transformou-se em canto. E o canto, por sua vez, transformou-se em fronteira simbólica.

Mas a história africana ensina que as fronteiras simbólicas podem tornar-se perigosas quando deixam de distinguir entre o legítimo desejo de ordem e o impulso de exclusão. O mesmo povo que canta a propriedade da terra é também o povo que, durante décadas, acolheu irmãos de outras nações em busca de paz e sobrevivência. O mesmo solo que hoje se reclama com força é o solo onde muitos refugiados encontraram, no passado, um lugar para recomeçar. O risco está em transformar a afirmação de identidade num instrumento de rejeição coletiva.

Há uma linha ténue entre defender o que é nosso e negar a humanidade de quem chegou. Essa linha é atravessada quando o canto deixa de ser reivindicação e passa a ser ameaça. Quando a marcha deixa de ser protesto e se torna caça. Quando a pergunta “por que há disputa?” se transforma em “não há lugar para vós”.

A África do Sul de 2026 não é a única a viver esta tensão. Em várias cidades do continente, a pressão migratória, o desemprego jovem e a falência de serviços públicos criam o mesmo clima de urgência. O canto de Durban é, por isso, mais do que um episódio local. É o grito de uma geração que se sente esquecida pelo Estado e, ao mesmo tempo, ameaçada pela presença de outros que também foram esquecidos pelos seus próprios Estados.

A verdadeira pergunta que o canto levanta não é apenas sobre quem tem direito ao país. É sobre que tipo de país queremos construir quando a raiva se torna a única linguagem comum. Um país que se afirma pela exclusão ou um país que se afirma pela capacidade de gerir a sua casa com justiça, ordem e humanidade?

Enquanto as vozes ecoam pela Smith Street e os telemóveis gravam cada passo, o canto continua a subir. Forte, uníssono, convincente. Mas a história ainda não escreveu a resposta. Porque o país só é verdadeiramente nosso quando conseguimos protegê-lo sem perder a nossa própria humanidade no processo.

#DurbanEmProtesto #IdentidadeAfricana #OPaísÉNosso 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O REGISTO QUE O AMANHÃ NÃO PERDOA

CASADAS EM CASA, SOLTEIRAS NO SERVIÇO

NEM SEMPRE O QUE PAGAS É O QUE RECEBES.