É SOBRE O TRIBUNAL DAS RUAS OU TRATA-SE DA TIRANIA DO OLHAR

Quando a Rua se Torna Tribunal e a Alma se Torna Espectáculo

Há uma pergunta que insiste em romper o silêncio das nossas consciências: em que momento a vida privada se transformou em praça pública, e o olhar do outro, em sentença irrevogável? A viralização de um vídeo (assista o AQUI ) ou seja ele qual for, já não é um fenómeno isolado, mas o sintoma de uma época em que a intimidade é devorada pela voracidade do escrutínio colectivo.

A Situação é seguinte, como capturado na imagem, o vídeo mostra dois cidadãos, provavelmente do Médio Oriente, se encontram aos beijos e aparentemente, excitados, numa rua - área supostamente  menos movimentada. Porém, houve alguém que ousou usar o seu celular e captar o momento, para depois julgar ao partilhar ao mundo nas redes sociais. 

O filósofo Hans Jonas alertava que a técnica moderna, ao ampliar desmedidamente o poder humano, exigia uma nova ética da responsabilidade, capaz de antecipar as consequências dos nossos actos num mundo interconectado. Contudo, o que testemunhamos não é a assunção dessa responsabilidade, mas a sua perversão: a tecnologia, que poderia servir à emancipação, converte-se frequentemente num instrumento de humilhação e de controlo social. A rua, outrora espaço de anonimato e de coexistência pacífica, transforma-se hoje num palco onde cada gesto é filmado, cada deslize é amplificado e cada ser humano é reduzido à sua pior versão, capturada num instante irrepetível.

Hannah Arendt, ao analisar a condição humana, advertia que a crescente influência da tecnologia na sociedade moderna poderia conduzir à alienação e à perda da capacidade de agir e de nos engajarmos politicamente. O que vemos, porém, é algo mais grave: a substituição do juízo reflexivo pelo julgamento sumário, a troca da compaixão pela condenação pública. 

Quer dizer, nas redes sociais, o linchamento moral tornou-se um desporto de massas, e aquele que outrora seria protegido pelo manto da privacidade é agora exposto à fúria de uma multidão invisível que, no conforto do anonimato, se arroga o direito de decidir o que é decente e o que é abjecto.

A questão que se impõe não é a de saber se o comportamento filmado era ou não reprovável, essa é uma avaliação que pertence ao foro íntimo de cada um e às instituições legítimas. A questão é outra, mais funda: com que autoridade moral nos arvoramos em juízes da vida alheia? Que sociedade estamos a construir quando transformamos a vergonha pública num espectáculo de entretenimento? E, sobretudo, que espécie de seres humanos nos tornamos quando a nossa primeira reacção perante a fragilidade do outro é a de pegar no telemóvel para filmar, em vez de estender a mão para ajudar?

O blogue O Verbalyzador tem-se assumido como um espaço de denúncia, mas também de reflexão - um lugar onde as verdades incómodas são ditas sem meias-palavras, mas onde a exigência de consciência cívica nunca se confunde com a cultura da humilhação. Não se trata de relativizar o que é errado, mas de recusar a lógica do cadafalso mediático. A justiça verdadeira não se constrói com base em vídeos virais e comentários inflamados; constrói-se com instituições sólidas, com educação, com um sentido de responsabilidade que começa em cada um de nós.

A rua não é um tribunal. O olhar do outro não é uma sentença. E a alma humana, na sua infinita complexidade, não se reduz a um clip de trinta segundos. Se queremos uma sociedade mais justa, talvez devêssemos começar por desligar as câmaras e ligar as consciências. Porque, no fim, a verdadeira decência não é a que se exige dos outros, mas a que se pratica quando ninguém está a ver.



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