O MUNDO SEMPRE FOI PERIGOSO, NÃO SAIAM COM ESTRANHOS SEM CUIDADOS.
MÃOS ATADAS ATRÁS DAS COSTAS: O QUARTO DE HOTEL QUE SE TRANSFORMOU EM SENTENÇA
O que Esta Cena Ainda nos diz Sobre Confiança e Segurança.
Uma jovem deitada num quarto de hotel, as mãos presas atrás das costas, o corpo já sem defesa. O homem com quem tinha entrado no estabelecimento saiu sozinho. O pessoal do hotel só descobriu o que acontecera quando tentou entrar para limpar o quarto. A porta estava trancada por fora.
O caso, ocorrido em Gwarinpa, Abuja, voltou a circular com força nesse nosso canto de lições da vida abordadas em reflexões para nos lembrar da atenção redobrada que devemos enquanto vivos. A vítima foi identificada como Aladi Offikwu Johnson, conhecida por Tessy, natural do Estado de Benue. Entrou no hotel acompanhada. Não saiu. A polícia confirmou a morte e abriu inquérito. O companheiro nunca foi publicamente identificado.
Este tipo de cena não é apenas um crime. É um espelho.
Em muitos comentários que acompanham a circulação do caso, surge logo a palavra “ritualistas”. A associação é compreensível. Na Nigéria, o medo de assassinatos ligados a práticas de enriquecimento rápido, a partes do corpo usadas como mercadoria simbólica, está profundamente enraizado. Quando uma mulher aparece amarrada num quarto de hotel e o homem desaparece, a imaginação colectiva corre para esse território sombrio. Mas convém não fechar o raciocínio demasiado cedo. Nem tudo o que parece ritual o é. Às vezes é simplesmente violência sexual que escapou ao controlo. Às vezes é um companheiro. Às vezes é ganância, raiva ou o exercício mais cru do poder sobre alguém que já não pode gritar. Reduzir tudo a “ritualistas” pode servir de consolo fácil e, ao mesmo tempo, impedir que se olhe para as falhas mais prosaicas e mais corrigíveis.
Uma dessas falhas está à vista de todos: a segurança dos próprios hotéis. Quem entra num quarto com outra pessoa deveria deixar rasto. Identificação obrigatória na recepção, câmaras a funcionar no corredor e na entrada, verificação de quem sai sozinho. Não é paranoia. É o mínimo. Quando o estabelecimento não exige documento e não tem imagens úteis, o quarto deixa de ser um espaço de passagem e passa a ser um lugar onde se pode desaparecer sem testemunhas. O pessoal do hotel, neste caso, só interveio quando o silêncio se tornou demasiado longo. Isso já é tarde demais.
Há ainda outra camada mais incómoda. Muita gente, ao ver a história, pergunta se o homem seria namorado, conhecido de redes sociais ou simples encontro. A pergunta dói porque aponta para uma verdade que preferimos não pronunciar: o perigo nem sempre vem do desconhecido absoluto. Pode vir de quem já se deixou entrar. A confiança, sobretudo para mulheres jovens que se deslocam sozinhas ou que aceitam encontros em cidades grandes, tornou-se um exercício de cálculo permanente. Partilhar a localização com alguém de confiança, avisar para onde se vai, recusar o quarto quando o outro insiste em pagar tudo e controlar o ambiente - estas precauções soam repetidas, quase cansativas. Continuam, no entanto, a ser a diferença entre voltar a casa e não voltar.
O caso de Tessy não está isolado. Semanas e meses depois, outros hotéis da mesma cidade voltam a aparecer nas notícias com mulheres amarradas, ameaçadas ou resgatadas no último instante. O padrão repete-se com uma regularidade que deveria envergonhar qualquer autoridade que se limite a pedir “calma” e “cautela às jovens”. A cautela individual nunca substitui a obrigação colectiva de tornar os espaços públicos e semipúblicos menos hospitaleiros para quem mata.
O que mais inquieta, no fundo, não é só a crueldade do gesto. É a sensação de que a sociedade já se habituou a este guião. Uma mulher entra. Um homem sai. O corpo fica. O vídeo circula. Há indignação durante dois dias. Depois o algoritmo segue para a próxima tragédia. Enquanto isso, a família espera justiça que raramente chega com a mesma velocidade com que o vídeo se espalhou.
Ninguém que amarra outra pessoa e a deixa morrer num quarto de hotel merece o benefício da dúvida moral. Isso é ponto assente. Mas a conversa não pode ficar apenas na condenação do monstro. Tem de chegar à recepção do hotel que não pediu identificação, à câmara que não gravou, à polícia que precisa de resultados e não só de comunicados, e à cultura que continua a tratar o corpo feminino como território disponível - seja para prazer, para ritual ou para descarte.
Tessy já não pode defender-se. As mãos dela ficaram atrás das costas. As nossas, no entanto, ainda estão livres. A pergunta que resta é o que faremos com elas.

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