A NOVA IORQUE DOS BANHEIROS MODULARES CRONOMETRADOS. SABES DO QUE SE TRATA?

Quando o Relógio Dita a Dignidade de Quem tem Saúde 

Banheiros públicos de Nova Iorque abrem a porta automaticamente após 10 minutos. Reflexão sobre dignidade, privacidade e o direito à cidade.

Há gestos tão banais que raramente os pensamos como políticos. Urinar é um deles. Mas quando uma cidade decide que dez minutos é o tempo máximo que um corpo humano merece para satisfazer a sua necessidade mais elementar, esse gesto deixa de ser banal e torna-se uma declaração de princípios.

Nova Iorque acaba de instalar dezassete banheiros públicos modulares, parte de um programa-piloto de quatro milhões de dólares, operados pela Throne Labs, com um limite de utilização de dez minutos. Aos cinco e aos oito minutos, avisos sonoros alertam o utente. Aos dez, luzes intermitentes disparam, uma voz anuncia que a porta vai abrir e, cerca de trinta segundos depois, ela abre-se de facto e independentemente do que esteja a acontecer lá dentro. O presidente da câmara, Zohran Mamdani, resumiu a filosofia da medida com uma frase que merece ser dissecada: "Este não é um lugar para ficar a fazer scroll no telefone".

A frase é reveladora. Parte do princípio de que quem está num banheiro público está necessariamente a abusar do tempo. Não a passar mal. Não a acompanhar uma criança. Não a lidar com uma condição de saúde invisível. Não a ser uma pessoa sem casa que encontrou, por dez minutos, um espaço fechado, com temperatura controlada e água corrente - um refúgio num mundo que raramente lhe oferece algum. A cronometragem não distingue entre o utilizador legítimo e o "abusador". Trata todos como suspeitos até prova em contrário. E a prova, paradoxalmente, é a rapidez.

A cidade justifica a medida com números: a maioria dos utentes, nos mercados onde a Throne opera, sai em três minutos e meio. Dez minutos é, portanto, generoso. Mas a média nunca foi um argumento contra a excepção. Nenhuma estatística sobre a duração média de uma ida ao banheiro nos diz nada sobre a mulher que precisa de mais tempo por razões menstruais, sobre o homem que acabou de sair de uma cirurgia, sobre a pessoa idosa que se move devagar, ou sobre aquela que simplesmente não consegue controlar o seu próprio corpo dentro de um cronómetro. A eficiência urbana, quando se torna o critério supremo, tende a esquecer que as cidades são feitas de corpos e que os corpos não obedecem a horários.

Há, no entanto, um contexto que não pode ser ignorado. Nova Iorque tem cerca de mil banheiros públicos para 8,6 milhões de residentes; um dos rácios mais baixos do país. A maioria está em parques, longe de onde as pessoas circulam, e muitos fecham fora do horário previsto. O programa de Mamdani responde a uma necessidade real. 

Agora, os novos banheiros são gratuitos, acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida, climatizados, equipados com fraldário e produtos menstruais. Num país onde a falta de banheiros públicos é uma crise de saúde pública, esta iniciativa é, em muitos aspectos, progressiva. O problema não está na existência dos banheiros. Está na lógica que os governa.

A questão mais incómoda é a da privacidade. A porta que se abre automaticamente não é apenas um mecanismo de gestão de tempo. É uma transferência de poder. O corpo que está lá dentro deixa de controlar quando sai. E se a pessoa estiver numa situação de vulnerabilidade, a vomitar, a sangrar, a lidar com uma crise de pânico por exemplo, a cidade decide, por ela, que já chega. A Throne Labs diz que "se ainda estiver com as calças em baixo, não vamos abrir a porta". Mas a confiança numa empresa privada para determinar o momento adequado de expor um corpo não é uma garantia de dignidade. É uma concessão. E as concessões, em contexto urbano, raramente são distribuídas de forma igual.

Há também uma dimensão de classe que atravessa esta medida. Quem tem acesso a um banheiro privado, digamos em casa, no trabalho, num restaurante onde pode pagar, vê-se que nunca sentirá o peso destes dez minutos. A cronometragem recai sobre quem depende do espaço público. E o espaço público, quando é desenhado em torno da desconfiança, transforma-se lentamente num espaço de vigilância. O aviso sonoro que diz "o seu tempo acabou" não é apenas uma informação. É um julgamento. E esse julgamento, repetido dez vezes por dia em cada esquina da cidade, ensina uma lição silenciosa: o teu corpo é um problema de gestão.

A solução não é simples. A falta de banheiros públicos em Nova Iorque é real e urgente. O programa-piloto tem méritos inegáveis. Mas talvez o verdadeiro teste de uma cidade não esteja na sua capacidade de instalar tecnologia, mas na sua disposição para confiar nos seus cidadãos. Um banheiro que se abre sozinho ao fim de dez minutos diz menos sobre a necessidade de rotatividade do que sobre o medo do outro. E as cidades que governam pelo medo, por mais eficientes que sejam, acabam sempre por cronometrar a dignidade de alguém.

Só espero que essa medida não chegue aos nossos países, onde ainda é luxo montar uma casa-de-banho pública e manter funcional por muito tempo depois da inauguração. Aliás, das poucas que temos algumas mal não se consegue reparar já passam ao desuso paulatinamente. E, ao invés de fazer a manutenção, recorre-se a construção de outras que por mesmos motivos das anteriores, em um par de meses seriam inutilizadas e voltamos a fazer necessidade nos caules das árvores, sobre a copa dos arbustos, sobre os postes e torres que transportam os cabos eléctricos e transformadores, sobre os lacis das ruas e muros, etc, na maior naturalidade.

Por: Crespo Mota Joaquim. NY

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