ATÉ ONDE NOS LEVARÁ A BUSCA POR VISUALIZAÇÕES E VIRALIZACÃO

O Caixão de Enori: Soberania, Viralização ou "Malavi"? A Quebra de um Tabu em Moçambique

Na última semana, algumas redes sociais foram palcos de uma publicação que rapidamente se tornou viral. A autora, identificada como Enori (@Brattyenori13), partilhou uma série de fotografias acompanhadas de uma declaração: “Porque esperar até estar velho e a morrer para comprar, quando podes comprar agora e guardar?”. Acompanhada da frase “É uma compra enorme. Mais pessoas precisam de fazer isto. Parabéns para mim”, as imagens revelam que a “compra” em questão é um caixão. Nas fotos, Enori aparece sorridente, vestida com um top rosa e calças de ganga rasgadas, abraçando o caixão, deitada dentro dele e posando ao lado de vários outros modelos num espaço que aparenta ser uma fábrica ou expositor. O que para uns pode parecer uma preparação excêntrica, para outros roça o absurdo e a profanação.

A Morte Como Espetáculo e o Peso da Tradição

Em Moçambique, a relação com a morte é complexa e profundamente enraizada na tradição. É comum ouvir relatos de famílias que adquirem jazigos nos cemitérios para descanso de várias gerações, ou de entes queridos que, em vida, indicam o local exato onde desejam ser sepultados, muitas vezes ao lado de familiares já falecidos. Esta é uma forma de organização familiar, um acto de previdência que visa aliviar o fardo dos que ficam. Contudo, a atitude de Enori eleva esta preparação a um patamar totalmente diferente e, para muitos, assustador. Comprar um caixão e guardá-lo em casa não é apenas incomum; é uma transgressão das normas sociais e culturais.

Para os macuas, por exemplo, esta conduta é particularmente chocante. Na cosmovisão macua, a morte não é apenas um evento biológico, mas uma passagem espiritual que exige respeito absoluto. O caixão não é um móvel, nem um objecto de decoração ou de vaidade. É o receptáculo sagrado do corpo. Posar dentro dele, sorrir, abraçá-lo como se fosse um prémio de consumo, é uma atitude que pode ser facilmente catalogada como malavi. O termo, que carrega o peso da loucura e da desordem mental ou espiritual, serve aqui como um escudo cultural para aquilo que é visto como uma profanação. A leveza com que Enori exibe a sua compra contrasta violentamente com a seriedade com que a morte é tratada nas zonas rurais e suburbanas do norte e centro do país.

A Busca pela Viralização e a Banalização do Fim

Se, por um lado, podemos tentar ler o gesto de Enori como uma tentativa radical de quebrar o tabu da morte e de a encarar de frente, por outro, é impossível ignorar a dimensão performativa e narcísica da acção. Vivemos na era do algoritmo, onde a atenção é a moeda mais valiosa. O choque vende. As imagens de uma mulher viva, sorridente e vestida de forma descontraída dentro de um caixão de luxo, são desenhadas a pensar no clique, no like e na partilha. Não se trata de uma reflexão filosófica serena sobre a finitude, mas sim de uma encenação teatral para as redes sociais.

A pergunta que fica é: comprou ela realmente o caixão para guardar, ou estamos apenas perante uma acção de marketing pessoal numa loja de móveis funerários? Mesmo que a compra tenha sido efetivada, a forma como foi comunicada transforma um rito solene num mero entretenimento digital. A morte, que deveria ser um momento de introspecção e respeito, é reduzida a um adereço de moda, a um troféu de consumo.

Conclusão: Um Espelho da Nossa Sociedade

No final, a viral de Enori diz mais sobre nós, enquanto sociedade, do que sobre ela própria. Diz da nossa incapacidade de lidar com a morte de forma natural, da nossa fome insaciável de conteúdo chocante e da tensão entre a modernidade digital e as tradições ancestrais. Podemos chamar-lhe malavi, podemos rir, ou podemos horrorizar-nos. Mas o facto é que ela conseguiu o que queria: fez-nos parar, olhar e falar.

O verdadeiro desafio não é comprar o caixão, mas sim viver de uma forma tão íntegra e significativa que, quando a morte chegar, não precisemos de nos deitar num caixão para provar que existimos. A vida não se mede pela grandiosidade da caixa que nos guardará, mas pela pegada que deixamos nos corações daqueles que ficam. A Enori, o algoritmo aplaudiu. A cultura, essa, ficou a arder.





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