O QUE RESTA QUANDO AS BOTAS SE RETIRAM?
O Fim de um Ciclo: Retirada dos EUA do Iraque e o Vazio que a Força Não Preenche
Washington/Bagdade — Os Estados Unidos iniciam a retirada definitiva das suas tropas do Iraque, encerrando uma presença militar de mais de 23 anos. A data limite para a conclusão do processo está fixada para 30 de Setembro de 2026, conforme o acordo alcançado entre Washington e Bagdade em Setembro de 2024. O anúncio foi feito pelo canal RT, que destaca o fim iminente de uma das operações militares mais longas da história recente dos EUA.
Os números da retirada são significativos. Nos últimos anos, cerca de 2.500 soldados americanos permaneciam estacionados no país, distribuídos entre bases em Erbil (Kurdistão), no aeroporto de Bagdade e na Zona Verde da capital iraquiana. Apesar do anúncio, não houve, até ao momento, confirmação oficial do Pentágono sobre a conclusão total do processo.
A presença militar americana no Iraque atravessou três fases distintas: a invasão de 2003 que derrubou Saddam Hussein, a retirada de 2011 sob a administração Obama, e o regresso em 2014 para liderar a coligação internacional contra o autoproclamado Estado Islâmico (ISIS). A missão de combate contra o ISIS terminou oficialmente em 2021, mantendo-se os militares americanos apenas como conselheiros e formadores.
O custo humano é considerável: aproximadamente 4.500 militares americanos morreram ao longo destas mais de duas décadas, enquanto as estimativas de vítimas iraquianas são substancialmente superiores, embora variem amplamente.
REFLEXÃO: O QUE RESTA QUANDO AS BOTAS SE RETIRAM?
Há momentos na história que exigem mais do que o registo dos factos. A retirada das últimas tropas americanas do Iraque é um desses momentos. Não porque seja surpreendente (foi acordada em 2024 e confirmada pelo primeiro-ministro iraquiano Ali Al-Zaidi como "a data final e irreversível"), mas porque encerra um capítulo que começou com uma promessa de libertação e terminou com uma pergunta incómoda: o que fica depois da força?
A Soberania como Espectro
É tentador ler esta retirada como uma vitória da soberania iraquiana. E, de facto, há algo de profundamente simbólico no momento em que um país vê o último soldado estrangeiro deixar o seu território. O primeiro-ministro iraquiano já proclamou que 1 de Outubro de 2026 será "um novo dia na história do Iraque", marcando a libertação completa de qualquer presença militar estrangeira.
Mas a soberania não é um estado que se alcança com a partida de um exército. É um processo contínuo de construção institucional, de legitimidade interna, de capacidade real de garantir segurança sem depender de terceiros. E aqui, a questão complica-se.
O Vazio que Ninguém Quer Nomear
Os analistas iraquianos e os responsáveis de segurança não escondem a preocupação. A retirada americana pode criar lacunas em inteligência, logística e capacidades operacionais que as forças iraquianas ainda não conseguem colmatar. Mais grave: o vácuo de segurança pode permitir que o Irão e os seus aliados expandam a sua influência de forma significativa.
Jassim al-Bahadli, analista iraquiano, não tem dúvidas: "O Irão beneficiará estrategicamente da retirada da coligação, porque a presença militar que durante anos funcionou como contrapeso à influência de Teerão desaparecerá". As milícias pró-iranianas já celebram o que chamam de "vitória histórica", prometendo celebrar o fecho de "uma página negra na história do Iraque".
Esta é a ironia cruel de qualquer retirada militar: aquilo que se deixa para trás raramente é o que se pretendia construir. A invasão de 2003 prometia democracia e estabilidade. O que entrega, em 2026, é um país com soberania formal mas dependente de milícias, com instituições frágeis e um vizinho poderoso a exercer influência por outros meios.
A Estratégia da Distância
Do lado americano, a lógica é igualmente reveladora. A retirada não é uma rendição, mas uma reavaliação estratégica. Os EUA mantêm influência sobre o governo iraquiano através de canais diplomáticos, económicos e de partilha de inteligência. A relação transforma-se, não termina.
H.A. Hellyer, do Royal United Services Institute, é direto: "Isto tem a ver com risco, não com o ISIS; esse argumento expirou há anos". Numa região onde o conflito com o Irão continua aceso, manter 2.500 soldados em solo iraquiano tornou-se mais uma vulnerabilidade do que um ativo. A retirada é, acima de tudo, um acto de preservação.
A Lição que Moçambique Também Conhece
Para nós, moçambicanos, esta história ressoa de forma particular. Conhecemos bem o peso da presença estrangeira assim como em diferentes formas e contextos e a complexidade que se segue à sua partida. Sabemos que a independência formal raramente coincide com a independência real. Que a soberania proclamada nos discursos precisa de ser conquistada todos os dias, nas instituições, na economia, na capacidade de garantir segurança ao próprio povo.
O Iraque pós-retirada enfrenta agora o seu momento de verdade. As forças de segurança iraquianas dizem-se preparadas para assumir maior responsabilidade. O primeiro-ministro Al-Zaidi pressiona para que todas as armas passem para o controlo do Estado; incluindo as das poderosas milícias pró-iranianas; mas, o prazo para o desarmamento foi adiado para Junho de 2027. Esse adiamento diz muito sobre o que realmente está em jogo.
Conclusão: O Que Se Segue à Força
A retirada americana do Iraque não é um fim. É uma transição para algo que ainda não podemos nomear com precisão. Pode ser o início de uma soberania genuinamente iraquiana, construída sobre o difícil equilíbrio entre influências regionais e aspirações nacionais. Pode ser o prelúdio de uma nova fase de instabilidade, onde o vazio deixado pela força é preenchido por outras forças, igualmente estrangeiras, igualmente interessadas.
O que sabemos é isto: nenhuma ocupação dura para sempre. E nenhuma retirada garante por si só a paz. O Iraque entra agora numa nova era que viverá sem botas americanas no seu solo, mas com todas as contradições que essas botas ajudaram a criar e, ironicamente, a conter.

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