O QUE ACONTECE QUANDO UM POVO ENTENDE CIÊNCIAS EXACTAS

Se Metade de Moçambique Entendesse Ciências Exactas, o País Não Estaria em Perigo☢️ Estaria em Perigo a Corrupção⚠️

Autor: Amâncio Juma, natural do Niassa, especialista em políticas educativas e investigador associado em desenvolvimento científico. Japão.

Há uma pergunta que persiste nos corredores das escolas secundárias de Lichinga, nas conversas de fim de tarde nas machambas do Niassa, e nas mesas dos que pensam o futuro deste país: o que aconteceria se mais de metade dos moçambicanos entendesse, de facto, ciências exactas? A resposta imediata de muitos é o medo. Medo do desemprego, da instabilidade, do choque com tradições. Mas a resposta honesta, aquela que exige coragem para ser dita, é outra: não há perigo intrínseco nenhum. O perigo existe para quem depende da ignorância alheia para manter poder.

O Medo Não É da Ciência. É do Questionamento.

Partindo do princípio que a ciência exacta (matemática, física, química, biologia) é uma ferramenta. Como toda a ferramenta, o seu impacto depende de quem a usa e para quê. Se mais de metade da população moçambicana dominasse o método científico, a lógica formal e a estatística básica, o país não entraria em colapso. Entraria em crise quem lucra com o colapso.

Em Moçambique, os dados oficiais mais recentes do Ministério da Educação e Cultura mostram que as disciplinas de Química, Biologia e Matemática continuam a registar os índices mais baixos de aproveitamento a nível nacional, o que se presume pelos teóricos da conspiração que seja bom ambiente para governar sem se preocupar com responsabilidade. Na província de Gaza, por exemplo, mais de 13 mil alunos reprovaram nos exames da 9ª classe, com Química, Biologia e Matemática no topo das dificuldades. Numa turma de 30 alunos em Xai-Xai, apenas cinco foram aprovados a Química. Estes números não são apenas estatística. São um retrato de um sistema que, por acção ou omissão, produz analfabetismo científico em massa.

E o analfabetismo científico é o terreno mais fértil para a manipulação. É onde florescem a pseudociência, os esquemas financeiros fraudulentos, a desinformação sanitária e a aceitação resignada da má governação. Uma população que não entende probabilidades não consegue avaliar o risco de um contracto de dívida pública. Uma população que não domina a lógica não detecta a falácia de um discurso político. Uma população que não compreende o método científico não questiona a ausência de laboratórios, de medicamentos ou de água potável.

Os Perigos Reais da Transição - e Porque Não São Argumentos Contra a Ciência

Reconheçamos, sem romantismo, que uma transição acelerada para uma sociedade cientificamente literata traria desafios concretos. Mas é fundamental distinguir os perigos da ciência dos perigos da transição para a ciência num país pobre e mal governado.

O primeiro desafio é o desemprego qualificado. Se subitamente tivéssemos centenas de milhares de jovens a dominar cálculo diferencial, programação e estatística, mas sem fábricas, hospitais, laboratórios e infraestrutura tecnológica para os absorver, o resultado seria frustração social. Vários países árabes viveram exactamente isso antes de 2011: diplomados desempregados, cérebros desperdiçados, revolta nas ruas.

O segundo é a fuga de cérebros. Médicos, engenheiros, estatísticos e programadores moçambicanos iriam para Portugal, África do Sul, Europa, Canadá. Sem salários competitivos, sem laboratórios funcionais e sem perspectiva de carreira técnica, o investimento na formação do país escoaria pelas fronteiras. O Estado perderia capital humano exactamente quando mais precisaria dele.

O terceiro, e talvez o mais revelador, é a reacção autoritária. Uma população que entende estatística passa a exigir contas. Questiona o orçamento da educação, que caiu de 14,2% para 12,1% em 2025. Questiona a mortalidade infantil, a gestão das calamidades, os contratos do gás, a dívida pública. Uma população cientificamente literata é uma população que lê os números e pergunta: onde está o dinheiro? Porque é que a taxa de aprovação a Matemática é de 15%? Porque é que 44 mil professores do ensino primário foram formados em STEM, mas apenas 228 professores do secundário e 392 formadores receberam capacitação?

O perigo, portanto, não é para o povo. É para o status quo.

O Que Acontece Quando Um Povo Entende Ciências Exactas

Vejamos o que a evidência internacional nos diz. Não se trata de genética, de raça ou de cultura inata. Trata-se de sistemas educativos, de investimento, de professores valorizados e de empregos que absorvem talento.

Singapura é o exemplo mais citado, e com razão. No PISA 2025, 37% dos alunos singapurianos atingiram níveis de topo em Matemática, contra uma média de 8% nos países da OCDE. Singapura ficou em primeiro lugar mundial em Leitura e segundo em Ciências e Matemática. O sistema é centralizado, o currículo é exigente, os professores são selecionados com rigor e o inglês garante acesso ao conhecimento global.

A Estónia, um pequeno país que saiu da órbita soviética, lidera a Europa em Ciências e Matemática. No PISA 2025, 90% dos alunos estónios atingiram pelo menos o Nível 2 de proficiência científica, e a Estónia ficou em primeiro lugar na Europa em Ciências, Matemática e resolução computacional de problemas. A digitalização da educação, a programação desde cedo e a equidade do ensino público explicam o fenómeno.

O Vietname é talvez o exemplo mais inspirador para Moçambique. Um país em desenvolvimento, com rendimento per capita muito inferior ao de Portugal ou da Coreia do Sul, conseguiu resultados notáveis no PISA 2025: 71% dos alunos vietnamitas atingiram o Nível 2 ou superior em Ciências, aproximando-se da média da OCDE de 74%. Em Matemática, 58% alcançaram esse nível, contra 65% da OCDE. O foco na formação de professores e num currículo exigente, mesmo com recursos limitados, produziu resultados que muitos países ricos não conseguem.

O Japão mantém-se no topo: 22% dos alunos japoneses são de alto desempenho em Matemática, e o país ficou em quinto lugar mundial em Ciências e Matemática no PISA 2025. A Coreia do Sul tem 23% de alunos de topo em Matemática e pontuações médias de 526 em Ciências. A Finlândia, embora com resultados em declínio, continua acima da média da OCDE, com 504 pontos em Ciências.

Nenhum destes países é perfeito. A Coreia do Sul tem taxas alarmantes de stress escolar e suicídio juvenil. Singapura é frequentemente criticada pelo excesso de pressão sobre os alunos. Mas nenhum deles vê a literacia científica da sua população como um perigo. Vêem-na como a base da sua soberania económica.

O Que Moçambique Já Está a Fazer - e O Que Falta

Há sinais de movimento. A Universidade Eduardo Mondlane formou os primeiros docentes em metodologias STEM, com 11 módulos temáticos, incluindo robótica educacional. O projecto MozSkills visa formar 350 professores altamente qualificados nas províncias de Maputo e Gaza. A UniRovuma, no norte do país, instalou um laboratório de matemática computacional, com formação em Python, modelagem matemática e estatística aplicada. A ExxonMobil financiou um centro tecnológico em Maputo com 40 milhões de dólares para formar engenheiros em petróleo e gás.

Mas estes esforços, embora meritórios, são gotas num oceano. Moçambique tem uma taxa de analfabetismo que ronda os 38%, subindo para 49,4% entre as mulheres. No norte do país, a taxa de analfabetismo atinge 54,5%. O orçamento da educação está a encolher. E a maioria das escolas continua sem laboratórios, sem internet, sem energia eléctrica estável.

A questão não é se Moçambique deve ou não investir em ciências exactas. A questão é se pode continuar a não investir sem condenar gerações inteiras à dependência, à manipulação e à pobreza estrutural.

A Armadilha do Scientismo - e a Necessidade de Humanidades

Seria desonesto terminar sem uma advertência. A ciência exacta, por si só, não resolve problemas sociais. Se as pessoas souberem só matemática e física, mas nada de ética, história, sociologia e filosofia, podem cair na armadilha do scientismo: a crença de que todo problema humano se resolve com uma fórmula técnica. Isso produz tecnocracia fria, desprezo pelos saberes locais e decisões autoritárias tomadas em nome da eficiência.

A educação científica que Moçambique precisa não é a que substitui as humanidades. É a que as integra. O método científico ensina a duvidar, a testar, a corrigir. A ética ensina a perguntar: para quê? Para quem? A história ensina que a ciência já foi usada para o mal. A sociologia ensina que nenhum conhecimento floresce em contextos de desigualdade extrema.

Conclusão: O Perigo Está na Ignorância, Não no Conhecimento

Se mais de metade dos moçambicanos entendesse ciências exactas, o país não estaria em perigo. Estaria em perigo a corrupção, o clientelismo, a pseudociência, a manipulação política e a exploração da ignorância. Os perigos reais seriam de transição: desemprego qualificado, fuga de cérebros, reacção autoritária, choque cultural. Todos eles geríveis com políticas públicas inteligentes, investimento em infraestrutura e criação de empregos técnicos.

O maior perigo, esse, já o vivemos todos os dias. É o perigo de um povo que não entende os números que governam a sua vida. Que aceita a má governação como fatalidade. Que confunde fé com factos. Que não sabe exigir contas porque não sabe ler o orçamento.

A ciência exacta não é uma ameaça. É a ferramenta mais poderosa que um povo pobre pode ter para deixar de ser pobre. E quem tem medo dela, tem medo de perder o poder que a ignorância lhe garante.


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