QUANDO O PODER CAI DO CÉU: Um Avião Militar Caiu e Matou Todos a Bordo
A Fragilidade das Instituições e o Silêncio que se Segue
O que aconteceu
Um avião militar da República Democrática do Congo (RDC) caiu na tarde de sexta-feira, 26 de Setembro de 2026, na localidade de Kenge, a mais de 200 quilómetros a leste da capital, Kinshasa. A aeronave transportava uma delegação da justiça militar e regressava de Kikwit quando, segundo fontes militares, desenvolveu uma falha técnica e se despenhou, matando todas as 14 pessoas a bordo.
Entre os mortos estão dois altos oficiais das Forças Armadas congolesas: o Tenente-General Mutombo Katalayi Tiende, chefe do tribunal militar, e o Tenente-General Bakumi Likulia, auditor-geral das forças armadas. Os restantes doze eram membros da delegação e tripulantes. O porta-voz do exército congolês, Major-General Efomi Ekenge, confirmou que uma investigação foi aberta para apurar as causas do acidente, enquanto o presidente do conselho de administração da Autoridade de Aviação Civil, Tryphon Kin-Kiey Mulumba, admitiu que a causa permanece desconhecida.
O acidente ocorre num contexto de profunda instabilidade no leste do país, onde o exército congolês combate diversos grupos rebeldes, incluindo o M23, apoiado pelo Ruanda. A morte simultânea do chefe do tribunal militar e do auditor-geral das forças armadas — dois pilares do sistema de justiça castrense — levanta questões que ultrapassam a mera tragédia aeronáutica.
A reflexão
Há algo de profundamente perturbador na imagem de um tribunal militar que cai do céu. Não pela ironia fácil, mas pela metáfora involuntária que encerra: as instituições que deveriam julgar e fiscalizar o poder são, elas próprias, tão frágeis quanto a aeronave que as transportava.
O Tenente-General Mutombo Katalayi Tiende não era um qualquer. Chefiava o tribunal militar de um país em guerra. O Tenente-General Bakumi Likulia auditava as contas das forças armadas. Ambos ocupavam posições que, num Estado de direito funcional, seriam incómodas para o próprio aparelho militar. Ambos estavam no mesmo avião. Ambos morreram.
O acidente, se de acidente se trata, expõe uma verdade incómoda: em contextos de governação frágil, as instituições de controlo interno não são apenas simbólicas — são também descartáveis. A pergunta que se impõe não é apenas “o que causou a queda?”, mas “o que significa que estas duas figuras viajassem juntas, na mesma aeronave, num país onde a aviação militar é notoriamente precária?”
Não se trata de sugerir conspiração. Trata-se de reconhecer que a arquitectura institucional de muitos Estados africanos pós-coloniais continua a assentar em lógicas de concentração de risco e de opacidade. A falha técnica é a explicação oficial. Mas a falha institucional é a explicação que não se ouve.
A RDC é um país onde a justiça militar coexiste com décadas de conflito armado, onde o auditor-geral das forças armadas opera num ambiente de recursos escassos e responsabilização limitada. A morte de ambos num único acidente elimina, de uma só vez, duas figuras cuja ausência será sentida — ou, talvez, cuja ausência será conveniente.
Esta é a questão que a filosofia política nos obriga a colocar: quando as instituições de fiscalização dependem de indivíduos específicos para funcionar, e quando esses indivíduos podem ser eliminados por um simples defeito técnico, que Estado é este? Um Estado onde o controlo do poder é estrutural, ou um Estado onde o controlo do poder é pessoal e, portanto, eliminável?
A resposta, infelizmente, parece clara. E a clareza é desconfortável.
A análise
Há três dimensões que merecem ser desdobradas.
Primeira: a precariedade material como sintoma. A aviação militar congolesa tem um historial documentado de acidentes. Aeronaves antigas, manutenção deficitária, formação limitada de tripulações — estes são lugares-comuns em contextos onde o orçamento da defesa privilegia o hardware de combate em detrimento da segurança operacional. A morte de 14 pessoas, incluindo dois generais, não é um evento isolado; é a expressão visível de uma negligência estrutural que já matou muitos antes e matará muitos depois.
Segunda: a concentração de risco institucional. Num Estado funcional, o chefe do tribunal militar e o auditor-geral das forças armadas não viajam na mesma aeronave. Não por superstição, mas por princípio de continuidade institucional. A morte simultânea de ambas as figuras cria um vazio que pode levar meses a preencher, num momento em que a RDC enfrenta uma guerra activa em várias frentes. A pergunta é: quem beneficia deste vazio?
Terceira: a opacidade como norma. A investigação foi aberta, mas o presidente da Autoridade de Aviação Civil já admitiu desconhecer a causa. Num país onde a informação circula com dificuldade e onde os mecanismos de escrutínio independente são limitados, a verdade sobre este acidente pode nunca vir a público. E é precisamente essa possibilidade — a de que nunca saberemos — que constitui o maior problema.
A opinião
O que me inquieta não é a queda de um avião. Aviões caem. O que me inquieta é a naturalidade com que aceitamos que, em certos contextos, a morte de figuras institucionais seja tratada como um acidente logístico, e não como uma questão política.
A RDC não é um caso isolado. Em vários Estados africanos, incluindo o nosso Moçambique, a fronteira entre o trágico e o conveniente é porosa. Acidentes rodoviários que matam opositores, quedas de avião que eliminam auditores incómodos, incêndios que destroem arquivos judiciais — estes eventos não são necessariamente conspirações, mas são frequentemente sintomas de uma mesma doença: a ausência de instituições suficientemente robustas para resistir à perda de indivíduos.
A filosofia política ensina-nos que o poder se mede pela capacidade de sobreviver àqueles que o exercem. Um Estado onde a morte de dois generais paralisa a justiça militar não é um Estado forte; é um Estado que depende de pessoas, não de estruturas. E os Estados que dependem de pessoas são, por definição, vulneráveis.
A pergunta que deixo não é sobre a RDC. É sobre nós. As nossas instituições sobreviveriam à queda de um avião? Ou dependem, também elas, de nomes que, se desaparecerem, levam consigo a própria possibilidade de escrutínio?
A resposta, como sempre, é incómoda. E é por isso que vale a pena fazê-la.
Por: Deborah Tutu Sambo.

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