DO RIO À PISCINA: NÃO É SÓ UMA SIMPLES FALTA DE HIGIENE OU ETIQUETA

A Vergonha que não é só Dela, mas Também de Quem Filmou

Um vídeo que circula nas redes sociais, impulsionado por uma partilha na rede X, está a gerar uma onda de reacções viscerais. [Assista 📽️AQUI📹] Nas imagens, captadas num fim de semana, uma senhora (vestida com uma camiseta vermelha, calções castanhos e uma toalha branca nos ombros), é vista a lavar as partes íntimas de uma criança com a água de uma piscina, provavelmente pública. 

Ela segura a criança numa posição que tenta impedir que os pés toquem na água, enquanto com a outra mão tira água e higieniza a zona depois de a criança ter feito cocó. Tudo isto enquanto outros banhistas se divertem nas proximidades. A autora da partilha expressa indignação com o sucedido. Contudo, a cena, captada algures em África, levanta questões muito mais profundas do que a simples falta de higiene ou etiqueta.

A lógica da lagoa aplicada à piscina

Do X: a lógica da lagoa aplicada à piscina. 

É fácil apontar o dedo e gritar "falta de educação". Mas a reflexão exige que se olhe para além do óbvio. Em muitas zonas rurais de Moçambique e do resto do continente, a água nunca foi um espaço de lazer. É um recurso de sobrevivência. Na lagoa ou no rio, as pessoas lavam-se de um lado, tiram água para beber, cozinhar, irrigar e construir do outro. A água é um bem comunitário e multifunctional onde ate os animais domésticos e selvagens, assim como as plantas precisam para suas necessidades. 

A senhora do vídeo, muito provavelmente, não estava a agir com maldade. Ela transportou a lógica da lagoa para a piscina. Ao olhar para aquela água azul e cristalina, o seu cérebro não processou "ambiente recreactivo e quimicamente tratado", mas sim "corpo de água disponível para higienizar uma criança". Faltou-lhe a literacia do lazer. Faltou-lhe alguém que, com empatia, lhe explicasse que aquele espaço obedece a regras diferentes das do campo.

A cumplicidade de quem assiste

E onde estavam os outros? Onde estava o salva-vidas? Onde estavam os banhistas que, em vez de intervirem, se limitaram a assistir? Aqui reside o cerne da podridão social que este vídeo revela. Numa piscina pública, a água é partilhada. Se a senhora estava a contaminar o espaço, o dever cívico de qualquer cidadão era aproximar-se e dizer, com respeito:

"Minha senhora, desculpe, mas aqui não é o local adequado para isso. Há uma casa de banho ali, ou pode tirar água para um balde e lavar a criança longe da piscina."

 Simples! 

Mas ninguém o fez. A sociedade preferiu o silêncio incómodo ou o riso nervoso. A mulher foi deixada sozinha na sua ignorância, enquanto uma plateia invisível se preparava para a crucificar digitalmente.

A ética do cameraman

Este é, talvez, o ponto mais perturbador de toda a história. Quem capturou a imagem não o fez para resolver o problema. Fez para expor. Escondeu-se atrás de uma lente para filmar uma criança numa situação de vulnerabilidade extrema e uma mulher a ser humilhada, talvez, na sua boa-fé.

O cameraman teria feito melhor se tivesse guardado o telemóvel e ido ter com ela. A pedagogia do exemplo vale mais do que mil vídeos virais. Ao filmar, ele não só não resolveu a questão da higiene da piscina, como expôs uma criança e uma mãe ao tribunal da internet. A autora do post, Natasha Mutiti, tem toda a legitimidade para se indignar com a falta de civismo, mas a indignação não pode servir de desculpa para a violação da dignidade alheia. O vídeo não é um acto de cidadania; é um acto de voyeurismo social.

O Abismo que nos Separa 

Este episódio é um espelho da profunda fratura de classes e de acesso que existe no nosso país. Para uns, a piscina é um espaço trivial de fim de semana. Para outros, é um oásis desconhecido, o primeiro contacto com água que não serve para cozinhar. Quando esses dois mundos colidem, o choque é inevitável.

Não se trata de justificar o acto, que é errado e anti-higiénico. Trata-se de entender que a verdadeira vergonha não é apenas da senhora que não sabe onde lavar o rabo de uma criança. A verdadeira vergonha é de uma sociedade que falhou em ensinar, que falhou em integrar, e que agora se deleita a apontar o dedo nas redes sociais enquanto ignora as suas próprias falhas estruturais.

Conclusão

O rio perdoa. A piscina, não. Mas a sociedade também não devia perdoar a si mesma por ter preferido o escárnio à educação. Se a senhora errou por não saber, nós erramos por não ensinar. E se há algo que este vídeo prova é que, muitas vezes, a maior sujidade não está na água da piscina, mas na forma como tratamos aqueles que ainda estão a aprender a nadar nas regras da cidade.

Por: Salimo Abdul Mendes


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