O ÁLCOOL DOS POBRES MATA, O ÁLCOOL DOS RICOS SOCIALIZA

O Alerta do Canadá e a Verdade que Ninguém Quer Ver

O governo canadiano emitiu esta semana um aviso de segurança aos seus cidadãos que viajam para a Nigéria, recomendando cautela na compra de bebidas alcoólicas. A decisão surge após a confirmação de que 48 pessoas morreram e outras 182 ficaram gravemente doentes (sete das quais cegaram permanentemente) após consumirem preparados alcoólicos artesanais contaminados com altas concentrações de metanol no estado de Ondo, no sudoeste nigeriano. 

A NAFDAC, agência nigeriana de regulação alimentar e farmacêutica, confirmou a presença de metanol e de Cannabis indica nas amostras recolhidas, e o governo de Ondo já anunciou uma revisão do quadro regulatório para produtos herbais e alcoólicos locais.

O tópico que motivou esta reflexão é um exemplo perfeito de como a dor humana se transforma em espectáculo digital. Num único post, o autor comprime um alerta diplomático, 48 mortes evitáveis e uma generalização étnica (“Yorugba people is really bringing bad name to nigeria”) que transforma uma tragédia de saúde pública numa disputa tribal de redes sociais. Não há aqui indignação genuína. Há engagement. Há a economia perversa da atenção, onde o cadáver do outro serve para alimentar o algoritmo.

O álcool dos pobres mata, o álcool dos ricos socializa

Há uma pergunta que ninguém em Abuja ou Lagos quer fazer em voz alta: por que é que 48 pessoas morreram por beberem Monkey Tail (o nome popular do preparado artesanal) e não por beberem whisky escocês importado? A resposta é brutalmente simples: porque a Nigéria tem dois sistemas de saúde pública. Um para quem pode pagar garrafas seladas em supermercados com ar condicionado. Outro para quem compra o que há no mercado informal, onde a regulação é uma palavra vazia e o Estado está ausente.

A NAFDAC confirmou os níveis letais de metanol, mas a pergunta que fica é anterior: onde estava a NAFDAC antes das mortes? A agência existe, tem mandato, tem laboratórios. Mas a fiscalização do mercado informal nigeriano é uma ficção administrativa. Os 182 doentes e os sete cegos não são vítimas de um acidente químico. São vítimas de um Estado que escolheu não ver.

A quem interessa a morte dos invisíveis?

O alerta canadiano é, em si, revelador. Não é a Nigéria que protege os seus cidadãos - é o Canadá que protege os seus turistas. A mensagem implícita é clara: “Nigerianos, morram à vontade. Mas se um canadiano beber o vosso álcool falsificado, isso é um problema diplomático.” A hierarquia das vidas é nua e crua.

E o tuíte de @NigeriaStories, ao desviar a conversa para uma suposta vergonha étnica, faz exactamente o que o poder quer: que a atenção se perca em conflitos identitários enquanto as estruturas de negligência permanecem intactas. Quando o problema é “os Yorubá” ou “os Emi Lokan”, ninguém pergunta por que é que o metanol chega ao copo. Ninguém pergunta quem lucra com a venda de bebidas não reguladas. Ninguém pergunta por que é que a Nigéria, maior economia de África, não consegue garantir que os seus cidadãos não morram envenenados ao beber.

O que Moçambique tem a aprender

Esta história não é distante. Moçambique conhece bem a economia informal da sobrevivência, onde o Estado está ausente e as pessoas inventam formas de viver - e de morrer - longe dos olhos da regulação. Do txukudu às barracas de cerveja artesanal nos arredores de Maputo, o padrão repete-se: onde a pobreza é estrutural, a segurança é um luxo. E quando as mortes acontecem, a culpa é sempre das vítimas - “não deviam beber isso” - nunca do sistema que as empurrou para essa escolha.

A verdade incómoda que o blog O Verbalyzador costuma trazer é esta: não basta denunciar tópicos sensacionalistas ou o alerta tardio do Canadá. É preciso nomear a arquitectura que produz estas mortes. A corrupção que permite que o metanol circule. A fiscalização que existe no papel mas não nas aldeias de Ondo. A indústria do entretenimento que vende “bbl girls” e música alta como cortina de fumo para o veneno que se bebe. E, acima de tudo, a indiferença de quem acha que isto é problema de “gente que não sabe beber”.

Quarenta e oito pessoas morreram porque beberam. Mas morreram, na verdade, porque alguém decidiu que as suas vidas valiam menos do que o lucro de uma garrafa sem selo. E enquanto a conversa for sobre etnias e memes, o metanol continuará a circular.


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